É outono na cidade de Misano, na Itália, e o dia amanheceu frio e cinzento. Mas, felizmente, isso não interfere em nada na programação. Afinal, quem se importa com a temperatura quando sabe que terá a oportunidade de pilotar o Audi RS 5 campeão da temporada 2013 do DTM, o campeonato alemão de carros de turismo? É o meu presente de Natal antecipado!
Após o pessoal da equipe me ajudar a prender o cinto de segurança, sinto que estou praticamente conectado ao conjunto capaz de produzir 460 cv. O minúsculo volante também está encaixado. Os mecânicos montam os pneus (ainda cobertos com as mantas elétricas) e, logo depois, o carro sacode com o impacto após o macaco ter sido desencaixado. O ritmo dos meus batimentos cardíacos sobe.
As portas — de compósito de fibra de carbono, mas que parecem ser tão finas quanto papel — são travadas. Repasso mentalmente as instruções dadas anteriormente pelo engenheiro de corridas Jürgen Jungklaus: “Girar a chave principal no console, aguardar o sinal de partida e depois acionar o botão no volante. Em seguida, acelerar um pouco”. Não parece complicado.
Executo o procedimento e, então, o poderoso V8 desperta, urrando nervosamente a cada acerada. Aciono o câmbio e, então, ouve-se um “clack” metálico, a letra N no visor à minha frente dá lugar ao número 1 e o carro vibra. O pedal da embreagem me parece muito distante, mas Mike Rockenfeller, o “dono” do carro e novo campeão da categoria, me garante: “Você só vai precisar dele na hora de sair”.
Ao contrário do que se poderia imaginar, dentro da cabine o barulho não é tão grande. A posição de dirigir lembra muito a dos carros de série e o carro responde aos comandos de maneira suave. Impressionante. É hora de sair dos boxes, mas antes, ainda confiro a pressão do pedal de freio.
Então, estou na pista. Recordo a advertência do diretor de competições da equipe, Wolfgang Ullrich: “Fique atento às luzes no alto do visor à sua frente e troque as marchas assim que elas mudarem de amarelo para vermelho. Com os LEDs vermelhos acesos, você pode chegar, no máximo, a 7.400 rpm.”
“Misano é um local ideal para avaliações”, contou Rockenfeller. “A pista é relativamente plana e tem áreas de escape asfaltadas. É fácil levar um carro ao limite”, explicou o campeão.
A bordo do RS 5, logo compreendo o que o piloto quis dizer. Rapidamente, percebo o que o carro tem de melhor: o equilíbrio. Exibindo uma estabilidade aparentemente infinita, o Audi parece grudado ao chão na transição entre as curvas após a largada. Depois, duas curvas à direita, outra à esquerda contornada em 3ª marcha e surge uma longa reta. “Aqui você pode testar os freios”, disse Rockenfeller.
Então, vamos lá: piso com toda força no pedal do meio e as pastilhas dianteiras agarram os discos de carbono com 380 mm de diâmetro (atrás, eles têm 340 mm). A desacelaração é violenta, e no painel, LEDs piscam, indicando o travamento das rodas. Apesar do cinto de segurança de seis pontos, quase acabei deslizando para baixo do volante!
Estou quase no fim da avaliação quando ouço pelo rádio: “Experimente o ajuste da asa”. Em 2013, foi introduzido um recurso similar ao da F1, que permite deixar o aerofólio totalmente plano, a fim de permitir mais ultrapassagens durante as corridas.
O sistema é acionado pelo piloto e proporciona um ganho de até 7 km/h, que faz a diferença no fim de uma reta. Mas, para ser franco, dentro do carro eu não percebi qualquer mudança.
Vale lembrar que, por questões de custo, os os carros do DTM têm praticamente a mesma base: os motores são similares, assim como as transmissões, a estrutura de plástico com fibra de carbono, os amortecedores e os freios. Mas, então, onde cada equipe ganha vantagem? No equilíbrio, na aerodinâmica e no consumo dos pneus. Por isso, os times estão sempre batalhando para encontrar o acerto entre downforce e arrasto. E tudo isso requer um piloto talentoso.
Essa é a receita de sucesso do Audi RS 5 com Mike Rockenfeller. “Além de rápido, ‘Rocky’ sabe como extrair o máximo dos pneus e a hora certa de conservá-los” revelou o seu engenheiro de pista. Ou seja, também no DTM, não basta apenas ser rápido para conquistar vitórias. É preciso ser um estrategista.
Ficha técnica
Aceleração de 0 a 100 km/h n/d; Motor V8, dianteiro, longitudinal, gasolina; Cilindrada 4.000 cm3; Potência 460 cv; Torque 51,0 mkgf; Câmbio automático sequencial, 6 marchas; Tração traseira; Rodas alumínio forjadas; Suspensão dianteira triângulos superpostos; Suspensão traseira triângulos superpostos; Comprimento 5,01 m; Largura 1,95 m; Altura 1,15 m; Peso mínimo (c/ piloto) 1.110 kg.