Nem bem é dada a partida e ouve-se uma mensagem: “Vossa senhoria, a harpa está tocando.” Quando essas palavras ecoam no interior sagrado do Rolls-Royce Ghost não significa ainda que é o momento para se afivelar o cinto de segurança. A vossa senhoria, no caso — embora pareça um erro —, está sentada em uma das poltronas dianteiras de couro e, supostamente, no lugar errado. Só depois é emitido o aviso do cinto de segurança.
Atrás e à direita, onde normalmente o patrão se acomoda, não há qualquer aviso acústico referente ao cinto. Dirigir ou ser dirigido, nunca a questão foi tão relevante como no Ghost, o menor e mais dinâmico da família de luxo britânica.
O primeiro 40/50 cv, produzido de 1906 a 1925, mais conhecido como Silver Ghost, vem de uma época em que carros não passavam de carruagens reformadas. No passado, os senhores ilustres não se sentavam atrás por ser mais majestoso, mas sim porque, na maioria das vezes, eles não eram capazes de dirigir um carro. Sem mencionar o difícil processo de partida por meio de manivela.
Hoje, ouve-se apenas um clique suave quando o motorista pressiona o botão de arranque, despertando assim a força elementar de um grande V12 de 6,6 litros. Existe um império inteiro entre seus 570 cv e o que era considerado “suficiente” antigamente. No passado, a Rolls-Royce não produzia motores de alta potência e desprezava a necessidade anunciá-los.
Hoje, é tudo muito diferente: o poderoso biturbo resmunga suavemente em ponto morto. Apesar de, originalmente, ele ser um legítimo germânico oriundo da Fábrica de Motores da Bavária (BMW), ele entrega mais torque do que o similar do seu irmão 760i. São incríveis 79,6 mkgf.
O “baby Rolls” de 5,40 m de comprimento — 44 cm a menos que o Phantom — acaricia as mãos que estão no volante. O revestimento de couro é sublime e a suavidade com a qual o Ghost responde à direção entusiasma. Não queremos exagerar e dizer que o carro é ágil, mas ele se sai muito bem nas curvas.
Quando, em 1998, a marca Rolls-Royce foi adquirida pela BMW numa batalha lendária com a VW, os tradicionalistas reclamaram, mas com todo o respeito, a carroceria com suspensão pneumática criada pela BMW vale a pena. O Ghost compartilha apenas 20% de seus componentes com o Série 7, mas, ao dirigi-lo, a impressão é de que esse compartilhamento é maior. E isso — é bom lembrar — não significa nenhum demérito.
Para quem acha que um Rolls-Royce é sempre um automóvel intimidador, é bom saber que o Ghost apenas desperta a inveja social, mas não a provoca. Ao fotografar, inclusive, desejávamos até um pouco mais de atenção, sem sucesso. Provavelmente, havia poucos rappers, lordes e xeiques na cidade, na ocasião.
Voltando à avaliação, é hora de acelerar e então o “Espírito do Êxtase” (nome da deusa que ele traz sobre o capô) ergue-se e vê o sedã atingir 100 km/h em exatamente 5s2, como se fosse lançado por um rebatedor em um jogo de críquete.
Do sistema de escapamento duplo sai um rosnado inesperado, próprio para atrapalhar uma conversa em uma festa de jardim. Mas o maior prazer é obtido ao se aproveitar a força disponível entre 1 500 rpm e 5 000 rpm enquanto se observa o indicador de potência “dançando” em torno dos 90%.
Com desenvoltura e tranquilidade irritantes o câmbio automático de 8 marchas da ZF atribui a qualquer velocidade a marcha perfeita. E a sensação do pedal de freio não é diferente: suave e dosada. Ao parar no semáforo, o Ghost não derrama uma gota sequer da xícara de chá.
Com um perfil aerodinâmico similar ao de uma geladeira, o carro de 2,5 toneladas felizmente não se mostrou um ébrio descontrolado: no teste de consumo padrão da Auto Motor Und Sport, ele registrou 9,3 km/litro de média. Já durante os testes, com aceleração máxima, a marca não passou dos 6,2 km/litro. Mesmo assim, são números razoáveis para um automóvel tão grande e pesado.
Passeia-se numa catedral móvel de luxo e desfruta-se do clique suave perfeito, da elegância das telas digitais, dos guarda-chuvas nobres embutidos nas portas dianteiras e da originalidade elegante dos instrumentos analógicos projetados em preto e branco. Além disso, o tique-taque de um pequeno relógio é perceptível.
O que seria do Rolls-Royce sem as suas peculiaridades? O ar-condicionado tem quatro controles, mas nenhum deles exibe escala de temperatura. Para ajustá-lo, é melhor recorrer ao controle de voz: “James, está muito quente aqui”. Simples assim.
Nós realmente procuramos, mas não encontramos nenhum defeito de funcionamento. Aqui, ele se difere do BMW, assim como a sua lista de opcionais: uma estatueta do radiador em azul brilhante e mesas de piquenique aumentam o seu preço em cerca de 8 600 euros. Com tudo isso, o “fantasma” flutua majestoso sobre as ruas, balançando o emblema da marca no centro da roda sempre horizontalmente.
Ele absorve as imperfeições do piso facilmente graças à sua suspensão a ar e se mostra pouco à vontade apenas sobre terrenos mais acidentados. Parece até um pequeno milagre a forma como os pneus de perfil baixo passam despercebidos.
Esse comportamento comprova que o Ghost segue à risca a regra segundo a qual todo Rolls-Royce deve ter obrigatoriamente três itens: conforto, conforto e conforto. E ele celebra isso de maneira especialmente silenciosa: o nível de ruído interno do carro a 160 km/h foi de 68 decibéis, número que outros modelos não conseguem atingir nem a 80 km/h.
Quem fecha as enormes portas suicidas na traseira cria um paraíso de tranquilidade. Um local de relaxamento e sono maravilhoso, quando o banco traseiro é colocado eletronicamente na posição horizontal e o V12 entoa uma canção de ninar.
Conduzir ou ser conduzido? Para o feliz proprietário de um Ghost, o único modelo da Rolls-Royce à venda no Brasil por R$ 2,3 milhões, essa deve ser a única preocupação antes de sair com o seu automóvel.
Ficha técnica
Velocidade máxima 250 km/h; Aceleração de 0 a 100 km/h 5s2; Consumo médio 9,3 km/l; Motor V12, dianteiro, longitudinal, gasolina; Cilindrada 5.935 cm3; Potência 570 cv a 5.250 rpm; Torque 79,5 mkgf a 1.500 rpm; Câmbio automático, 8 marchas; Tração traseira; Rodas liga leve, aro 20”; Suspensão dianteira triângulos superpostos; Suspensão traseira multibraço; Comprimento 5,40m; Largura 1,95 m; Altura 1,55 m; Entre-eixos 3,29 m; Porta-malas 490 l; Peso 2.450 kg
