Carro pode voar? Sim, pode. Vamos imaginar a seguinte situação: é sexta-feira, às 17h30 no centro de São Paulo, SP. Milhões de pessoas seguem por trajetos distintos em diversas velocidades, com diferentes propósitos, mas raramente alguém se esbarra. E é mais raro ainda alguém se chocar violentamente com outra pessoa e se lesionar gravemente.
Pois é, o nosso cérebro é capaz de analisar inconscientemente o comportamento de diversas pessoas que vão à frente e determinar o que cada um dos músculos do nosso corpo deve fazer para que cheguemos ao destino sem nos chocarmos com ninguém. O automóvel também deveria fazer isso, pois já existem computadores capazes de proporcionar essa segurança, mas eles, infelizmente, ainda não o fazem.
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Se os carros atuais já “conversassem” uns com os outros, eles poderiam trafegar a 200 km/h a pouco mais de cinco centímetros de distância do veículo que vai ao lado, na frente ou atrás. Quando quisesse mudar de faixa, bastaria ao motorista acionar a seta e realizar a manobra. Ninguém reclamaria, nem ficaria buzinando insistentemente, pois os outros carros teriam sido informados automaticamente da manobra.
E se o automóvel já é capaz de fazer isso, também pode voar. Sistemas de comunicação entre veículos já existem e um exemplo está sendo desenvolvido pela empresa americana GPSTrackit, o V2V (sigla para vehicle-to-vehicle, ou “de carro para carro” em tradução livre). Esse programa informa o condutor sobre o que está sendo mapeado e monitorado à sua volta e é capaz de interferir nos freios ou no acelerador do veículo, caso seja necessário em uma emergência. Ele não elimina a autonomia do motorista, mas acrescenta a inteligência artificial a fim de evitar acidentes.
Mas, para conduzir um veículo pelo ar, seria exigido um sofisticado controle do tráfego aéreo. Ou seja, você não poderia sair voando com seu carro para qualquer lugar. Ou melhor, poderia, mas teria de pagar por isso e conseguir uma licença, como um plano de voo determinado.
Um sistema como o Google Maps ou o Waze, por exemplo, poderia conter os “caminhos aéreos”, as estradas virtuais do ar. No espaço áereo, seria possível colocar cem pistas lado a lado, com cem pistas “empilhadas” umas sobre as outras, com diferença de poucos metros entre elas. Acha complicado? Os drones, esses pequenos aviões-helicópteros com vários motores, eram equipamentos da Nasa (a agência espacial americana) há poucos anos e hoje são brinquedos capazes de entregar pizza na sua varanda, desviar de uma bala ou cruzar o país levando uma encomenda, com um controlador barato que contém giroscópios, acelerômetros e controladores lógicos de altíssima capacidade. E ainda é barato.
Assim, caso você quisesse ir para o Ceará com o seu carro voador, bastaria acessar o site de planos de voo, selecionar o destino e pagar as taxas de utilização do sistema. O computador determinaria a rota e geraria um código de viagem. Em seguida, você seguiria — por terra — até o portal de elevação mais próximo (informado pelo computador). Ao passar por ele, o sistema assumiria o controle do veículo, que passaria a voar até o destino. Chegando ao portal de recepção do destino, o sistema sairia de cena e devolveria o controle do automóvel a você. Ou seja, o motorista não teria de adquirir um brevê para pilotar o carro no ar.
RODOTUBE
Imagine-se em um carro viajando numa estrada a 2.200 km/h. O para-brisa não aguentaria a pressão do ar, os pneus se desintegrariam e o arrasto aerodinâmico destruiria a carroceria. O carro teria de possuir um aerofólio para garantir a estabilidade, mas, ao mesmo tempo, essa mesma peça destruiria a suspensão, tamanho o downforce que seria gerado. Sabe quem é o vilão da história? A atmosfera.
Poderíamos perfeitamente ter uma rodovia tubular, fechada e hermética, com duas pistas de ida e de volta. Por fora, revestida de painéis solares capazes de alimentar uma cidade inteira. A cada cem metros, um pequeno compressor drenaria o ar do interior do imenso tubo para manter o vácuo. Seria como um túnel, só que externo (para aproveitar a energia solar). Pronto! Seu carro poderia atingir Mach 2 (duas vezes a velocidade do som) sem problemas. Para que usar carros? Um trem MagLev (de levitação magnética) permitiria realizar a viagem entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro em pouco mais de dez minutos. Incluindo algumas paradas, claro.
LEVITAÇÃO MAGNÉTICA
Parece ser muito fácil fazer um carro levitar usando somente a força de imãs. Mas, antes, precisamos entender o que é o magnetismo. Acredite, ainda não sabemos o que é essa força, nem de onde ela surge. A resposta parece estar nos buracos negros, que são grandes concentrações de matéria remanescente de uma estrela morta que entra em colapso devido à sua enorme massa e à extinção de sua energia, produzindo assim uma gravidade tão forte que é capaz de distorcer o espaço e o tempo. Física quântica.
Para se ter ideia, a gravidade é algo tão difícil de entender que ela é a única coisa capaz de penetrar dimensões além das três conhecidas (altura, largura e profundidade) se misturando ao tempo, sem ser alterada por ele. Por ser tão complexo de entender, produzir um reator de gravidade negativa, ou seja, capaz de produzir um fluxo magnético seja lá o que isso for, na direção contrária à gravidade da Terra e fazer um veículo levitar no chão, está ainda no imaginário dos cientistas e aficionados por ciência quântica. A Volkswagen promoveu um concurso de design de automóveis futuristas na China e o projeto vencedor foi justamente o de uma espécie de automóvel popular que levita. Uma espécie de Hover Fusca.
SISTEMAS ELÉTRICOS
Os fios de cobre estão presentes em muitos sistemas elétricos, exceto nos modernos “de verdade”, como tablets e smartphones, que usam cabos flexíveis impressos e circuitos ópticos. Dominamos a tecnologia da fibra óptica e já podemos reduzir em vários quilogramas o peso de um chicote elétrico do carro. Hoje ele pesa cerca de 30 kg e contribui para a emissão de milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Por que, então, a fibra óptica não é adotada nos carros? Custo elevado? Mas como uma fabricante chinesa consegue produzir um abajur de fibra óptica e vendê-lo no Brasil a R$ 2, incluindo as pilhas, o LED, a embalagem e o frete do transporte marítimo?
Questões financeiras à parte, ainda seria preciso integrar os diversos módulos em uma unidade “pensante”. Telefones celulares, por exemplo, possuem muito mais capacidade computacional do que qualquer módulo eletrônico de um carro, mesmo os mais modernos. Aplicativos que beiram a inteligência artificial “conversam” com o usuário, e controlam sua saúde, finanças, vida pessoal etc. Tudo isso está reunido na palma da sua mão, mas você ainda não pode deixar de segurar o volante.
Com a tecnologia disponível atualmente, o automóvel já deveria ser autônomo na direção e independente nas decisões, por isso vou tratar de falar no presente. Ele me leva para o trabalho e volta para a garagem ou leva minha esposa ao mercado. Entende o trânsito e sabe aonde pode ir sem ter de ficar parado inutilmente nos congestionamentos.
Sempre que vai para algum lugar, ele avisa os outros carros do caminho para que ninguém fique no congestionamento. Aliás, não há congestionamentos. Sempre gentil e inteligente, o carro “sabe” quando estou com febre, cansado ou apenas resfriado e controla a temperatura da cabine, mantendo-a o mais saudável possível, aumenta ou diminui o volume do rádio e relata as principais notícias do dia, de acordo com as minhas preferências. O Waze já faz isso, assim como o Google e o Facebook. Só a indústria automotiva ainda não faz.
PINTURA AUTORREGENERATIVA
Muito se falou sobre as novas tintas automotivas capazes de se regenerar de um risco ou um arranhão. O segredo por trás dessa inovação também já é conhecido: a nanotecnologia. Após um risco, os nanocomponentes da tinta (que é superelástica), se reagrupam, preenchendo o defeito.
Em 2005, a Nissan apresentou pela primeira vez a tecnologiaScratch Shield de pinturas automotivas autorregenerativas desenvolvidas em parceria com a Universidade de Tóquio e a Advanced Softmaterials Inc. Eles pintaram um Murano, um 370Z e um X-Trail, além de alguns modelos da Infiniti. Mas sabe onde eles acharam que a pintura faria mais sucesso? Em um telefone celular! Ou seja, não basta o telefone móvel ter o mérito de ser o item tecnológico mais avançado que as pessoas podem ter. Ele ainda leva (e estreia) a tecnologia dos automóveis.
“Gostamos de pensar paralelamente, tomando as grandes inovações que temos no ponto de vista automotivo e analisando como elas poderiam ser aplicadas para aprimorar o dia a dia. O iPhone Shield é um grande exemplo de como aplicar tecnologia automotiva de enorme impacto para os nossos clientes em outro produto de uso diário”, explicou Bob Laishley, diretor de desenvolvimento de negócios exteriores da Nissan na Europa.
ACABAMENTOS VIVOS
Os plásticos dominaram nossos carros desde os anos 1970 e hoje é impossível imaginar qualquer objeto que não utilize esse material. Os carros têm quase todo o seu interior de plástico. E que tal aproveitarmos isso para purificar o ar da cabine?
Existe um material que já é utilizado em diversos produtos, como pasta de dente, filtro solar e cosméticos, capaz de purificar o ar. O dióxido de titânio pode retirar da atmosfera e da água partículas de sujeira. Um filtro feito desse material limpa o ar e, após ser colocado em contato com a água, se limpa sozinho. Parece ficção científica, mas é exatamente isso. Além disso, uma superfície revestida com uma fina camada de dióxido de titânio em contato com raios ultravioleta do Sol libera radicais livres, que podem decompor os agentes poluidores da atmosfera.
Em pouco mais de cem anos, conquistamos muito mais em campos da ciência do que o automotivo, é verdade. Ganhamos muito na pesquisa médica e na genética, na computação, na construção civil e na cultura. Porém, como o carro é quase um membro da família, poderíamos levar um pouco desse avanço todo para as nossas garagens. Mas, como um cão atrapalhado e desastrado, continuamos amando esses monstros de aço e de plástico exatamente como eles são.







