Com mais de 20 anos de experiência na indústria de pneus, Renato Sarzano fala sobre o mercado de pneus no Brasil atualmente. Os problemas que o setor enfrenta e a estratégia da empresa para convencer os consumidores sobre a importância dos pneus na segurança e na eficiência dos automóveis.
Carro • Qual é a participação da Continental no mercado de pneus atualmente?
Sarzano • Hoje estamos com 12,3% de participação no mercado brasileiro.
Carro • Esse número é satisfatório?
Sarzano • Os nossos objetivos não passam por participação de mercado, ele é consequência. Se oferecermos bons produtos, tivermos uma boa distribuição e estratégias adequadas, conseguiremos uma participação maior no mercado.
Carro • Como está o mercado de pneus no Brasil hoje?
Sarzano • O mercado sofre atualmente com uma concorrência desleal. O Brasil tem particularidades com relação ao tipo de produto que precisa ser vendido aqui. O brasileiro não quer adquirir um pneu que ofereça durabilidade ou boa frenagem no molhado. Ele quer tudo no mesmo produto. Além disso, produzir aqui não é barato. Então, quando alguém importa um produto asiático para competir, sem que haja barreiras definidas, fica difícil. Sem falar na reciclagem. Todas as fabricantes brasileiras investem pesado para cumprir as metas estipuladas, enquanto boa parte das importadoras burla essa obrigação. Mas que fique bem claro: não queremos protecionismo, mas essa concorrência, além de desleal, é difícil de ser enxergada pelo consumidor. Logicamente, esse tipo de produto custa menos, e o consumidor não percebe as diferenças. Mas além de ser menos seguro, na maioria das vezes esse produto apresenta uma vida útil muito inferior à de um equipamento de qualidade. É o “barato que sai caro”.
Carro • E qual a solução para esse problema? Seria o governo estabelecer algum tipo de restrição às importações?
Sarzano • Não, acho que a restrição não é uma boa solução, criar um mercado artificial não é bom, essa é uma solução com prazo de validade. A solução é tornar a indústria nacional mais competitiva. E como se faz isso? Por exemplo, o Brasil não é autossuficiente em borracha natural, então, por que temos de pagar imposto de importação sobre essa matéria-prima? Acho que o correto seria incentivar o agricultor a plantar no país, a fim de evitar que a indústria que consome esse insumo pague mais por ele. O Brasil foi um tradicional exportador de pneus até 1995, 1998. A partir de um determinado momento, o país perdeu competitividade. Nós precisamos de estabilidade para podermos nos planejar e de competitividade. Isso fará com que a minha produção seja eficiente e, consequentemente, meu produto seja mais barato. E assim eu consigo vender no mundo todo.
Carro • Qual foi o principal fator que fez a indústria nacional perder a competitividade em meados dos anos 1990?
Sarzano • Naquela época, ainda não produzíamos aqui, mas acredito que o principal motivo foi que, até então, a indústria local praticamente vendia a sua produção toda para o mercado interno e exportava por qualquer preço, já que os ganhos no país compensavam. O crescimento das importações provocou o desequilíbrio dessa equação.
Carro • Atualmente, existem pneus cada vez mais específicos. Por que isso ocorre?
Sarzano • De fato, se você voltar alguns anos, aproximadamente cinco medidas de pneus eram responsáveis por 80% das vendas. Hoje é totalmente diferente. Com o grande número de carros importados no país, oferecemos mais de 400 produtos no mercado nacional e temos uma cobertura de aproximadamente 97%. Então, nós conseguimos atender praticamente todos os modelos que rodam no país, mas isso nos obriga a ter um estoque enorme, e exige muito da fábrica, que consegue produzir, mesmo em pequenas quantidades, pneus até aro 19”.
Carro • Ser a marca original influencia no momento da troca? Existem consumidores que adquirem pneus Continental apenas pelo fato de os originais serem da marca?
Sarzano • Essa influência existe, mas ela varia de acordo com o segmento. Nas categorias de produtos mais sofisticados, isso é uma verdade absoluta. O consumidor quer manter o mesmo pneu no seu carro e não abre mão disso. Já nos modelos mais populares o preço acaba influenciando.
Carro • Muitos clientes se queixam de não poderem efetuar a troca dos pneus nas concessionárias, assim como fazem com outros componentes do carro. Existe uma solução para isso?
Sarzano • Desde 1973, a Continental é a fornecedora das concessionárias Mercedes-Benz na Alemanha. No Brasil, já atuamos com algumas, mas foi muito difícil começar, pois aqui ainda existe o pensamento que a concessionária sempre cobra mais caro, e em muitos casos, isso era verdade. Trabalhamos para convencer as revendas de que os pneus seriam uma nova fonte de receita para elas. A maioria entendeu, acreditou e está colhendo os frutos dessa parceria.
Carro • Falando em segurança, não falta às fabricantes de pneus um maior engajamento para esclarecer o consumidor sobre a importância dos pneus na segurança ao dirigir?
Sarzano • Talvez, mas também não existe interesse por parte do consumidor. Para exemplificar, cito o exemplo da nossa campanha que envolveu diversos funcionários da Continental, que, de maneira voluntária, foram a diversos postos de combustível no Estado de São Paulo alertar aos consumidores sobre a necessidade de checar a pressão dos pneus regularmente. Você não faz ideia do que encontramos. Houve comentários do tipo “Mas precisa mesmo?”, até gente que disse nunca ter calibrado os pneus antes! Outro exemplo disso é a quantidade absurda de consumidores que não lê o manual do proprietário do veículo. Informações essenciais sobre os pneus, como a pressão correta, a quilometragem recomendada para a realização de balanceamento, rodízio etc. estão explicadas ali. Mas esperamos contribuir para mudar esse comportamento.

