
Sei que nada é para sempre. Mas mesmo assim foge-me à compreensão a tendência que vem ocorrendo de alguns fabricantes decidirem não participar de um salão do automóvel, como ocorreu recentemente com o Salão do Automóvel de São Paulo. Não vou dar os nomes dos que tomaram essa decisão, não vem absolutamente ao caso.
O que realmente me espanta é um fabricante não se dar conta do fato de que salões do automóvel têm o poder quase mágico de reacender o desejo de compra, têm mais valor nesse sentido do que a mais bem engendrada campanha publicitária na mídia de massa.
Por conta dessas contramarchas a Reed-Alcântara, promotora do Salão de São Paulo, se viu levada a adiar o evento deste ano para 2021.
O tradicional Salão de Frankfurt, seguramente o mais importante do mundo, não se realizará mais. O promotor do salão, a Associação Alemã dos Fabricantes de Automóveis e de Autopeças, a VDA, achou alternativa em Munique, que a partir de agora é quem hospedará a mostra na Alemanha. Berlim e Stuttgart também foram consideradas, mas o bastão ficou mesmo com a bela e importante cidade do sul da Alemanha.
Nisso os americanos deram o exemplo. No auge da crise econômica mundial de 2008/2009 houve Salão de Detroit. Quem esteve lá viu uma ocupação do Cobo Hall bem inferior à de outros anos. Mas fizeram. Como canta Kenny Rogers, um dos grandes do country, um pai dando conselhos ao filho, “você não precisa brigar para provar que é homem, mas se você é homem às vezes você tem que brigar.” Os americanos brigaram e o Salão de Detroit não parou.
A alegação corrente para não participar de um salão é o famoso custo, o fantasminha. É sabido que em meio a tantos gastos em pesquisa e desenvolvimento de carros elétricos e híbridos por conta de imposição de governos europeus, combinado com o sonho do carro de condução autônoma, o caixa dos fabricantes vem baixando nos últimos anos. Mas não é deixando de se apresentar num salão do automóvel que a situação financeira de qualquer fabricante melhorará. Especialmente quando o desejo de compra esfria.
Muito se fala que os salões perderam importância devido à internet. Racionalmente está certo, mas enquanto não houver imagem 3D nos monitores de desktops e notebooks, tampouco nas telas capacitivas dos smartphones, nada substitui o impacto emocional e visual de adentrar um salão do automóvel e ver todos aqueles carros expostos com os próprios olhos, sentir a energia das cores brilhando, entrar num, segurar o volante, ensaiar movimentar uma alavanca de câmbio ou sentir o clique das borboletas solidárias ao volante. É um momento mágico. E tem fabricante que ignora isso. Incompreensível.
E não apenas ver. Cada vez mais os fabricantes oferecem experimentação de veículos, a chance de dirigir um carro visto minutos antes estático num estande. Pense-se no efeito desse momento de quem pode e quem não pode comprar um carro — mas um dia poderá.
E tem o momento de gala da indústria automobilística, uma verdadeira festa que contagia todos, uma ocasião ansiosamente esperada, os meios de comunicação querendo falar do que viu nos dois dias a eles reservados. É diferente do tomar conhecimento dos lançamentos pela internet mediante os comunicados de imprensa. O que olhos veem o coração sente.
Há alguns dias tivemos o cancelamento do Salão de Genebra, na Suíça, o salão europeu que dá partida nos salões internacionais do Velho Continente no ano. O motivo, a poucos dias da abertura do evento, foi a epidemia do coronavírus, levando o governo suíço a proibir aglomerações de mais de mil pessoas.
Entretanto, houve Salão de Genebra — virtual, pela primeira vez. Novidades foram passadas à imprensa na internet por streaming. Impacto, repercussão? Nada perto do Palais d’Expositions, o Palexpo, agitado com o quase milhão de visitantes nos 11 dias da mostra.
#salvemossaloes, por favor.
Bob Sharp é jornalista, foi piloto de competição e teve três passagens pela indústria automobilística. É também o editor-técnico da CARRO e mais um apaixonado por automóveis. Você concorda, discorda ou quer esclarecer algum assunto com o nosso colunista? Envie sua mensagem para: bob@revistacarro.com.br.
