Você já parou para pensar em como os automóveis se modificaram nos últimos tempos? Estilos de carroceria, tamanho, desenho, motores, câmbio… Mas tem algo nos automóveis que nunca mudou: os pneus. Redondos, pretos (no máximo, com faixa branca) e feitos de borracha, eles continuam iguais, desde o século passado, certo?
Nem tanto. Embora aparentemente os pneus pareçam iguais, eles passaram por muitos aperfeiçoamentos nos últimos anos. A borracha natural, por exemplo, ainda é utilizada, mas em proporções cada vez menores — ao menos nos pneus destinados a automóveis de passeio.
Para o seu lugar, as fabricantes desenvolvem novos componentes que devem proporcionar melhor desempenho, segurança, conforto e economia de combustível. E o melhor: esses materiais ainda têm de ser ambientalmente corretos, ou seja, ter origem natural, renovável e cujo descarte não agrida ao meio ambiente.
No futuro, serão os biopneus
A Goodyear, por exemplo, pesquisa a produção do bioisopreno, para substituir o isopreno (um derivado do petróleo) na produção dos pneus. Outras fabricantes também estudam alternativas, já que existem diversos componentes utilizados na produção dos pneus.
Um dos mais conhecidos, atualmente, é a sílica, muito usada nos chamados pneus “verdes”, que têm menor resistência ao rolamento e proporcionam economia de combustível. Normalmente associado à origem mineral, o ingrediente também pode ser obtido a partir da casca do arroz, como observou Roberto Falkenstein, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Pirelli América Latina.
Por falar neles, os pneus verdes deverão ganhar importância cada vez maior. “Com o Inovar-Auto, equipar os carros com pneus de baixa resistência ao rolamento é a forma mais rápida e barata de as montadoras atingirem os níveis de eficiência previstos no programa”, explicou Flávio Santana, engenheiro de campo da Michelin. Sergio Camargo, diretor da Goodyear para a América Latina, concorda. “Em relação ao convencional, o pneu verde pode proporcionar cerca de 15% de economia do combustível”, disse.
O desafio maior, porém, está por vir. Afinal, se já apresenta uma economia substancial em relação aos pneus convencionais, a meta, para o futuro, é fazer com que os próximos produtos sejam tão eficientes quanto os atuais, mas na comparação com os pneus verdes. “Ser mais eficaz que um pneu antigo foi relativamente simples. Mas proporcionar economia de 10% a 15% em relação aos pneus atuais não é fácil. Temos muito trabalho pela frente”, afirmou Sergio Camargo.
Roberto Falkenstein, da Pirelli, lembrou ainda que o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) vai implantar, em 2017, um selo que deverá constar em todos os pneus vendidos no país, indicando o nível de eficiência, ruído e aderência sobre piso molhado. “Será uma etiqueta como a do Procel, que informa o nível de eficiência dos aparelhos eletrônicos”, explicou. “Acredito que isso auxiliará muito o consumidor”, acrescentou Falkenstein.
Pneus velhos: de problema a solução
Um problema antigo, e que parecia ser de difícil solução, era a reciclagem dos pneus usados. Atualmente, as fabricantes são obrigadas por lei a recolher um pneu velho para cada novo vendido. Por meio da Reciclanip, entidade criada pelas fabricantes Bridgestone, Goodyear, Michelin e Pirelli para dar destinação correta aos pneus inservíveis, esse material é encaminhado para ser usado como combustível em fornos de fábricas de cimento, por exemplo, que antes utilizavam óleo mineral (derivado de petróleo). Detalhe: nesses fornos, os restos de pneus queimam a temperaturas altíssimas e, assim, não produzem fumaça ou outros resíduos poluentes. Mesmo assim, existem filtros especiais que garantem a limpeza no processo de combustão.
Outra utilização para o material proveniente dos pneus inservíveis é a base asfáltica de vias. No Estado de São Paulo, por exemplo, uma lei de 2013 determina que as rodovias estaduais utilizem o chamado asfalto-borracha. Além do aspecto ambiental, esse material ainda apresenta maior resistência e menor nível de ruído.
No futuro, pneus sem ar?
Se o presente tem pneus cada vez mais “amigos do ambiente”, como serão os modelos do futuro? A Michelin e a Bridgestone, por exemplo, têm protótipos similares, que dispensam o ar para mantê-los inflados. O da marca francesa, aliás, já tem mais de dez anos desde a sua aparição. “O Tweel já mostrou sua viabilidade e está pronto para ser produzido em série. O problema, até agora, é o seu custo de produção, ainda elevado”, explicou Flavio Santana, da Michelin.
Para Roberto Falkenstein, da Pirelli, ainda é cedo para dizer se os pneus do amanhã serão similares aos atuais. “Acho que, em um futuro mais próximo, haverá sistemas de assistência que alertarão o motorista sobre a condição dos pneus em tempo real. Por que não imaginar um equipamento que alerte o condutor que a velocidade na qual ele trafega é arriscada, em virtude de o piso estar muito molhado, ou de o carro possuir muito peso?”, indagou. “Afinal, já existem sistemas de monitoramento da pressão dos pneus”, concluiu.
Sergio Camargo, da Goodyear, segue o mesmo raciocínio. “Costumo dizer que os pneus passam por evoluções e não revoluções. Pode até ser que amanhã o pneu sem ar se torne viável economicamente, mas acredito que, antes, veremos avanços nos sistemas que mantêm a calibração correta dos pneus, independentemente da ação do motorista”, analisou.
E quanto à cor? Já imaginou equipar seu carro com pneus vermelhos, por exemplo? As fabricantes já. “Atualmente, não existe empecilho para a produção de pneus coloridos. Nossas pesquisas, porém, mostraram que, com o tempo, esses pneus tendem a sujar em demasia. Por isso, o preto segue como a cor mais indicada para os pneus”, explicou Roberto Falkenstein.
Ou seja, os pneus até poderão continuar sendo redondos e pretos. Mas a tecnologia contida neles vai aumentar ainda mais.










