O que o Chevrolet Cobalt tinha de espaço interno também tinha de exótico. Ainda que gosto não se discuta, encontrar alguém que achasse o modelo bonito era tão difícil quanto lotar o seu porta-malas de 563 litros. Sua compra se dava muito mais pela razão do que por qualquer outro motivo. 

A reestilização do Cobalt mudou esse cenário e conferiu ao três-volumes um desenho à altura de seu espaço interno. Mas, em compensação, o carro também ficou mais caro. Na versão 1.8 LTZ automática o preço subiu R$ 3.600. 

Como o Cobalt LT 1.8 automático deixou de ser oferecido, agora é necessário desembolsar R$ 65.990 para levar um para casa. Isso deixou esse Chevrolet ainda mais distante do velho rival Renault Logan e o aproximou do Honda City, líder do segmento de sedãs compactos premium. 

No pacote LX com câmbio automático CVT, o modelo da marca japonesa parte de R$ 69.000*. Esse valor não inclui as melhorias que a linha 2016 vai receber, com destaque para os airbags de cortina e navegador para a versão EXL.
O City LX não teve tantas melhorias, com destaque para as maçanetas cromadas e comandos do rádio no volante.

Chevrolet Cobalt LTZ 1.8

Isso não impacta na modesta lista de itens de série do Honda e, diante do novo Cobalt, provoca uma inversão de valores. Agora elegante, o Chevrolet atrai pelo recheado pacote de equipamentos, contrastando com o racional City. Emoção e razão seguem na balança, mas agora mudaram de lado neste duelo.

RACIONALIDADE EM EXCESSO
Geralmente, os modelos da Honda oferecem apenas o básico em seus pacotes de equipamentos, sendo lentamente recheados conforme avançam em seu ciclo de vida. Assim, itens como “revestimento interno da tampa do porta-malas” e “pino de segurança para o tapete do motorista” são listados como novidades na linha 2016 dos City LX e DX, respectivamente. 

Facelift deixou o Cobalt mais atraente, com aspecto elegante

Apesar de ter reservado os simples sensores de chuva e crepuscular para a versão Elite (R$ 67.990), o Cobalt é mais completo. Seu sistema multimídia MyLink foi atualizado, e oferece espelhamento para alguns celulares Android e iOS, além de agora ter os práticos botões físicos. O navegador finalmente surgiu no Chevrolet, mas só permite o rastreamento por meio do sistema OnStar, item de série nas versões LTZ e Elite. 

Se por fora a dupla usa e abusa do visual com muitas linhas e vincos pela carroceria, por dentro o interior de ambos aposta no visual mais sóbrio. No Cobalt, o quadro de instrumento digital inspirado no de motocicletas segue dividindo opiniões, contrastanto com o cada vez mais popular plástico em preto brilhante no console central. O ar-condicionado perdeu dois botões (agora embutidos nos comandos de ventilação e seleção de difusores), criando um “vazio” na região.

A Honda ousou mais dentro do City, usando peças em dois tons de cinza e um desenho assimétrico. O painel tem um aspecto mais moderno que destoa do quadro de instrumentos e o rádio simples que equipam a versão LX.

Interior, com bancos de couro marrom, transmite mais sofisticação

Ainda que custe quase R$ 65.000, a dupla não surpreende no nível de acabamento. Em ambos existe muito plástico rígido e alguma falta de cuidado nos detalhes, como o acionamento ruidoso do recirculador de ar do City e os bancos dianteiros com alavancas de acionamento duro no Cobalt. Os dois sedãs podem não surpreender neste quesito, mas ao menos compensam na hora de acomodar a família.   

LATIFÚNDIO POPULAR
Até menos de dez anos atrás, ter 2,60 m de entre-eixos era característica de sedã médio. Com a bem-sucedida empreitada da Renault com o Logan, foi questão de tempo para que a concorrência repetisse a receita de adotar medidas de carro grande em um compacto. 

A GM se aproveitou da espaçosa plataforma GSV para criar o seu compacto. A virtude do Cobalt é que, além de ser maior no comprimento, ele também é largo. São meros 4 cm a mais em relação ao City, mas é o suficiente para que três adultos tenham mais espaço atrás. 

No City, os assentos mais altos proporcionam distância dos joelhos para os bancos dianteiros digna do Civic. A contrapartida é que aqueles que têm mais de 1,75 m ficam com a cabeça mais próxima do teto.

Porta-malas de 563 litros continua como o grande destaque do Cobalt

Ainda que seja ligeiramente menor, o Honda protege melhor seus passageiros. O sedã recebeu cinco estrelas na avaliação de impacto do LatinNCAP – o Cobalt não foi avaliado, mas seu “irmão” de plataforma Onix levou três estrelas.
Só o City tem encosto de cabeça e cinto de três pontos para todos os passageiros, além de oferecer engate Isofix para fixação de cadeirinhas e interruptor para desligar o airbag do passageiro. E ele também trata melhor seus ocupantes, já que a espuma macia de seus bancos torna as viagens mais confortáveis.

O problema do Honda é a referência. Em relação à geração anterior, ele perdeu o ótimo banco traseiro reclinável, exclusivo do segmento. E a Honda segue sem oferecer sensor de estacionamento nem mesmo como opcional.

A GM também economiza nos detalhes: como mimo, o Cobalt traz apenas o ar-condicionado que aciona o recirculador de ar automaticamente nas velocidades 3 e 4. Segundo a empresa, nessa situação, o motorista deseja o máximo de refrigeração na cabine. Nos dois o porta-malas tem o maior aproveitamento possível. O do Cobalt tem mais espaço, mas ambos utilizam o tampão atrás do banco traseiro mais alto para ganhar espaço no bagageiro. Pode ser bom para a bagagem, mas é ruim para a visibilidade.

Honda City LX 1.5

A suspensão independente na frente e por eixo de torção atrás na dupla prioriza o conforto. No City, a Honda conseguiu uma calibração mais eficiente, permitindo a adoção de pneus com rodas de 16”, contra as de 15” do rival.
Quem anda no sedã da marca asiática também consegue conversar com mais facilidade, já que o City foi melhor que o Cobalt em todas as nossas medições de ruído.

Até agora, a Honda apresenta uma superioridade técnica invejável em relação ao seu novo rival por faixa de preço. A compensação do Chevrolet é a mesma que garantia sua vitória diante do Renault Logan: a força bruta.

Não que o veterano motor 1.8 do Cobalt seja um exemplo de potência, já que ele gera parcos 108 cv, sendo superado pelo 1.5 de 116 cv do Honda. A principal diferença surge justamente onde mais importa na cidade e nas viagens com o automóvel carregado. 

Além de maior, o torque de 17,1 mkgf do Cobalt chega antes. Seu pico acontece a 3.200 rpm, enquanto o Honda precisa chegar a 4.800 rpm para entregar os seus 15,3 mkgf. Na prática, isso significa mais força e facilidade de utilização.Além disso, o Cobalt usa câmbio automático de seis marchas, contra o sistema continuamente variável do City. O CVT japonês é mais eficiente, mas a dirigibilidade da caixa convencional do Chevrolet agrada mais ao consumidor comum.

Mais potente, forte e com quase o mesmo peso, a vitória do Cobalt na pista de testes é garantida? Nem tanto, como você pode conferir pelos números de nossos testes. O Honda equiparou e até superou o Chevrolet na maioria das medições de aceleração e de retomada.

Visual do Honda passou por mudanças no ano passado

Isso porque, desde que você se acostume com o conta-giros estacionado acima das 4.000 rpm durante as acelerações – característica dos carros com caixa CVT –, o City entrega desempenho muito bom. A boa integração do trem de força dá agilidade ao modelo, que conta com modo Sport no câmbio, para respostas mais rápidas, e Low, para descidas íngremes.
O Cobalt faz com que você acelere menos para arrancar nas saídas de semáforos. Depois disso, porém, ele se equipara ao Honda. 

O novo sedã da GM do Brasil oferece mudanças sequenciais, ainda que por meio de um pouco prático botão na alavanca, enquanto no City, a opção pela troca sequencial das sete marchas virtuais só está disponível da versão EX para cima. Nenhum deles oferece um modo de condução econômico, mas o Honda conta com uma lúdica luz azul no painel que se torna verde quando você dirige de forma mais eficiente.

A vantagem do City está nas tecnologias do motor 1.5 de alumínio. Além de dispensar o uso de gasolina nas partidas a frio, ele é o único do segmento a ter comando com variação de fase e de levantamento de válvulas. O desempenho do motor é mais linear, e o consumo, menor.

Em nossos testes, o Honda obteve consumo médio de 9,6 km/l. A distância dos 7,5 km/l registrados pelo Chevrolet é proporcional à idade do projeto de cada motor.O Honda também é mais fácil de manobrar, já que tem direção com manuseio agradável e assistência elétrica, mais leve que o sistema hidráulico do Chevrolet. Em ambos há comandos de som no volante, mas o Cobalt adiciona controlador de velocidade, item muito útil em rodovias.

Cabine do City peca pelo excesso de simplicidade

Em uma condução mais ágil, o City também se destaca, chegando a surpreender em curvas rápidas. Isso passa longe de sua proposta, mas vem a calhar em ultrapassagens e retomadas. Ele exige atenção somente nas frenagens, pois seus pneus estreitos não entregam o mesmo desempenho dos do Cobalt.

Manter o City também é mais barato, pois, além de custar menos, o preço de suas peças e do pacote de revisões é inferior ao do rival. Nos quesitos seguro, desvalorização e garantia a dupla se equivale, com ligeira vantagem para o Chevrolet, com sua enorme rede de concessionárias.

A superioridade técnica do Honda acaba ofuscando o Cobalt, cujo visual renovado finalmente combina com seu vasto espaço interno. Preferido de consumidores racionais, como taxistas e frotistas, ele agora tem potencial para roubar clientes que também valorizam a estética.

Fichas técnicas dos sedãs

O problema é o seu posicionamento. O Cobalt é mais espaçoso do que Nissan Versa, Renault Logan e Hyundai HB20S, mas se equipara ao City sem oferecer contrapartidas à altura. A forração da tampa do porta-malas, que só agora o Honda recebeu, não existe no Cobalt, nem na versão topo de linha Elite.

Seu reposicionamento na tabela de preços não se justifica e pode prejudicar a imagem do ex-patinho feio dos sedãs compactos “grandes”. Sem motor eficiente e requinte técnico, a briga do Cobalt ainda é no patamar de baixo. 

Medições realizadas no campo de provas da TRW, em Limeira (SP)

PASSO MAIOR QUE A PERNA
O sedã compacto-médio da Chevrolet superava a concorrência com um porte superior e preço atraente. Seu custo-benefício era tão bom que muitos abriam mão do design, falha corrigida na reestilização. Pena que a GM resolveu eliminar a versão LT automática de linha e aumentar o preço dos outros pacotes. Por mais que tenha ganhado um visual atual, o novo Cobalt não recebeu melhorias à altura do moderno City. Ainda que, como todo Honda nacional, ele tenha um custo-benefício pior, seu conjunto mecânico é superior e se reflete em mais economia de combustível e conforto a seus ocupantes. Mesmo menos equipado, o City é a escolha ideal para quem busca um três-volumes para acomodar a família com mais espaço.

*O preço divulgado na edição 267 da revista CARRO, onde foi publicado o comparativo originalmente, era de R$ 64.900, conforme a tabela de preços da Honda na ocasião.  

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