Quem busca um carro com câmbio automático que proporcione conforto, mas sem comprometer o orçamento tem cada vez menos opções. A Nissan tirou o Livina de linha, caminho seguido agora pelo C3 Picasso, substituído pelo novo Citroën Aircross, que ganhou novas versões mais em conta para concorrer com o onipresente Honda Fit. 

Sem rádio e estepe na traseira na versão inicial, o Aircross parte de R$ 49.990 com motor 1.5. Porém, o pacote Live, o mais barato com câmbio automático, começa em R$ 58.990 e é equipado obrigatoriamente com o motor 1.6 de 116 cv. A potência é similar ao do Honda Fit DX, que custa R$ 60.500 quando equipado com o câmbio continuamente variável CVT. 

Visual moderno do Aircross foi inspirado no novo C4 Picasso

Logo de cara, o Citroën sai na frente, pois seu visual recém-atualizado chama a atenção diante do pasteurizado Fit. Ajudam nesta tarefa as luzes de condução diurna em LEDs e faróis de bloco elíptico com facho alto e baixo, itens inexistentes até na versão mais cara do Honda. Ar-condicionado, assistência de direção elétrica e trio elétrico estão presentes em ambos, mas o Citroën adiciona rodas de liga-leve de 16”. O rádio com MP3, bluetooth e USB é simples em ambos, contudo o Aircross oferece um sistema multimídia com espelhamento como opcional por R$ 1.400.

Quem busca outros equipamentos, como sensor de ré, alarme ou faróis de neblina, precisará optar por acessórios de concessionária ou subir de versão. Nessa faixa de preço o foco é a racionalidade, praia dos japoneses – e onde o Fit começa a ganhar este duelo.

O Honda é mais curto, estreito, baixo e tem menor entre-eixos que o Citroën. Mesmo assim, ele equivale ao Aircross em espaço interno, chegando a superá-lo em quesitos como a distância dos bancos aos joelhos de quem vai atrás.

Isso se dá pelo projeto mais moderno do monovolume, que tem características como bancos traseiros reclináveis e assentos rebatíveis individualmente, o que possibilita levar cargas altas. Pena que esse recurso não equipa a versão DX.
Até ano passado, o mais barato dos Fit sequer tinha retrovisor pintado na cor da carroceria ou para-brisas degradê de série na linha 2016. Tanta simplicidade pode incomodar quem vai gastar mais de R$ 60.000 em um carro, mas isso também se reflete em menos peso.

Central multimídia com CarPlay e MirrorLink é destaque no Aircross

O Fit é 223 kg mais leve, seu motor tem a mesma potência do Aircross (com gasolina) e o câmbio automático CVT é mais eficiente que a caixa de quatro marchas do Citroën. O resultado disso na pista é fácil de prever.

Em nossas medições o Fit foi mais rápido, econômico e freou melhor que o Aircross. Naturalmente, isso se reflete em uma dinâmica superior, sobretudo no trânsito urbano.

Ainda que ambos tenham direção com assistência elétrica (novidade do Citroën), no Honda é mais prazeroso encarar o “anda e para” das cidades. Sua suspensão é mais confortável e a carroceria rola menos em curvas, transmitindo maior sensação de estabilidade.

É fato que não há um pingo de esportividade na dupla, mas o 1.5 do Fit faz uma ótima parceria com o CVT e responde rápido em ultrapassagens. Em nenhum deles há sobra de potência, mas viagens longas com o carro carregado são enfrentadas com mais facilidade pelo Honda.

Porta-malas de 403 litros é maior que o do Fit

Racionalmente é difícil encontrar argumentos para colocar na garagem um Aircross ao invés do Fit. Mas, a não ser que você esteja entre um Etios ou um Palio Fire, a razão não é a única coisa a ser levada em conta. E aí o jogo vira pró-Citroën.

TECNOLOGIA CRIATIVA  
Nas fotos, a reestilização do Aircross pode não agradar ao primeiro olhar, mas pessoalmente o visual atualizado parece bem melhor. O desenho inovador dos faróis faz boa dupla com as luzes de condução diurna, e a retirada do estepe tornou o visual do monovolume mais limpo, deixando-o, de tabela, mais leve. E, para quem busca se destacar, a carroceria maior faz o novo Aircross chamar a atenção em meio ao trânsito, especialmente quando pintado na cor vermelho Rouge Rubi como o das fotos, item opcional de R$ 1.390.

Design do Fit foi renovado em 2014, mas ainda rende elogios

O interior com as saídas de ar quadradas é um suspiro de ousadia diante do sóbrio painel retilíneo do Fit. Há, porém, muito plástico rígido e a tecnologia a bordo não é tão criativa quanto o slogan da marca dá a entender.
Historicamente com ergonomia ruim, os carros de origem francesa vêm melhorando gradualmente, mas ainda há falhas no percurso. Os comandos de retrovisor e vidros elétricos nas portas dianteiras adotam a configuração tradicional, mas nas portas traseiras eles ficam muito baixo.

A chegada de um sistema multimídia com tela sensível ao toque e posicionada na porção central do console é bem-vinda, mas trocar o botão “mudo” pelo acionamento simultâneo dos comandos  do volume não é nada intuitivo.
O acessório opcional é exatamente o mesmo do novo Peugeot 308. Como o compartimento do painel é mais largo, há uma estranha área com plástico sem botões ao lado da tela, que fica mais à direita no console. É um incômodo maior para quem tem obsessão por simetria, mas não deixa de causar um certo estranhamento ao motorista.

Interior do Honda é sóbrio, porém bastante funcional

A cereja do bolo é o veterano comando de som na coluna de direção, presente em quase todos os modelos da Peugeot Citroën lançados na última década. Após certo aprendizado, seu uso é cômodo, mas não se compara aos práticos botões no volante. Ruim ou não, ao menos o Aircross oferece a opção de ajustes do áudio fora do aparelho, pois no Fit isso só está disponível da versão LX para cima.

Os bancos elevados do Aircross são levemente mais desconfortáveis em viagens longas, mas o espaço para a cabeça é imbatível, o que agradará em cheio quem tem uma família alta. A direção elétrica é agradável e dá agilidade ao monovolume carioca, que no dia a dia não aparenta ter a carroceria maior que a do Fit.

O motor 1.6 de 122 cv (com etanol) é adequado, mas não há tecnologia que compense o veterano câmbio automático de quatro marchas. Em congestionamento e vias expressas, pode-se relevar a  indecisão do sistema, que ora mantém o motor em rotações elevadas, ora demora para reduzir. Mas os altos giros na estrada incomodam no ouvido e no bolso, com consumo rodoviário de 9,7 km/l – ante 11,8 km/l do Fit.

No Fit é mais prático aumentar o espaço do bagageiro

Além de ser mais econômico, o Honda é mais barato de manter. Ele só perde no valor da cesta básica de peças, mas o preço menor do pacote de revisões e do seguro acaba compensando.

O Honda entrega um rodar mais confortável e  oferece maior sensação de solidez, que vai do acabamento de bom nível (ainda que com muitas partes de plástico liso) ao barulho abafado quando as portas são fechadas. A qualidade superior de construção dos modelos da marca japonesa já é conhecida no mercado, facilitando também a revenda do Fit.

Ficha técnica dos modelos

O Citroën Aircross é levemente mais equipado e espaçoso, e seu desenho é mais chamativo e moderno. Mas o Fit trata (muito) melhor o seu bolso, e compensa o custo-benefício inicialmente ruim com um produto moderno que agrada a todos os seus ocupantes no dia a dia.

Medições realizadas na pista de provas da ZF-TRW, em Limeira (SP)

FIT, O INALCANÇÁVEL
O Citroën C3 Picasso era uma alternativa interessante para quem buscava um carro maior e mais equipado que o Fit. As novas versões iniciais do Aircross podem agradar aos órfãos do monovolume, especialmente pela retirada do antiquado estepe externo. Mas não há desenho ousado e custo-benefício superior que compense o esforçado, porém defasado, câmbio automático de quatro marchas. Ainda que tenha melhorado bastante no acabamento e pós-venda, a Citroën segue aquém da Honda nesses quesitos no Brasil. Com a caixa automática de seis marchas do C4, porém, o Aircross poderia se aproximar — e até superar — do ainda inalcançável líder do segmento. Para o consumidor, a falta de equipamentos do Fit não é um problema.

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