Um hatch compacto com motor 1.6 aspirado até pouco tempo atrás era um segundo ou terceiro degrau para quem estava saindo de um popular 1.0. Hoje há exemplos de modelos – bem equipados, é verdade – que superam fácil a casa dos R$ 60.000. Mais: chegam a bater nos R$ 80.000 ou R$ 90.000. E nem são assim marcas tão afeitas de veículos premium, como Mercedes-Benz e Mini. O que está acontecendo para essa escada ficar tão íngreme?
Simples: diversas marcas estão procurando surfar na onda dos compactos bem equipados, sobretudo com parafernália eletrônica, para colocar o preço nas alturas. Dois exemplos recentes são o novo Kia Soul, que chega em duas versões (uma de R$ 88.900 e outra de R$ 92.900) e o Suzuki Swift, que custa R$ 74.990 na versão Sport e R$ 81.990 na Sport R.
O presidente da Kia Motors do Brasil, José Luiz Gandini, justifica o valor cobrado pelo Soul dizendo que o atual modelo não tem nada a ver com o oferecido anteriormente. “Realmente, o Soul não é barato. Mas é outro carro. A grande diferença são os itens que vêm instalados”, diz, enumerando itens como airbag lateral de cortina, revestimento de couro de alta qualidade, controlador de velocidade, rodas aro 18 e teto solar panorâmico.
Na Suzuki, o argumento segue mais ou menos a mesma linha. “Não acho o preço sem noção. Sugiro o seguinte: guie o carro e vamos conversar depois”, desafia Luiz Rosenfeld, presidente da Suzuki Veículos do Brasil. “O carro é um show de tecnologia, de performance e compete de igual para igual com Audi A1, Mini Cooper e DS3. Ele está por baixo do preço.”
Rosenfeld concorda que a Suzuki não é uma marca tão conhecida no país. “Ela está em construção. Por isso, estamos trazendo o Swift que mostrará do que a marca é capaz”, conta. Segundo ele, não é possível vendê-lo mais barato por razões de câmbio e tributação. De qualquer forma, ao apresentar seus produtos, a Suzuki compara o Swift com Mini Cooper, Audi A1 e Citroën DS3, enquanto a Kia troca o DS3 pelo Mercedes-Benz Classe A.
Para Arturo Piñeiro, presidente da BMW Group Brasil, Kia e Suzuki estão procurando ganhar terreno no segmento dos compactos que oferecem muitos itens de série. “Não consideramos nenhuma dessas marcas premium. Afinal, o que identifica um modelo premium é a integração das seguintes características: tecnologia de ponta, desenho e utilização de novos materiais”, afirma. Ele garante que o representante da marca, o Série 1, reúne todos esses atributos.
VW Fox po R$ 63.0000?
Mas não é preciso atravessar o oceano para constatar que a ampla oferta de equipamentos, mesmo em carros menores, faz seu preço final disparar. Produzido no Brasil, o novo Volkswagen Fox pode chegar a R$ 63.540. Isso se forem acrescidos à versão Highline (já consideravelmente equipada) sistema de som com GPS e Bluetooth em central com tela sensível ao toque (R$ 3.050), controle eletrônico de estabilidade com assistente de partida em rampas (R$ 1.140) e teto solar com luz de leitura dianteira (R$ 2.470).
Também não é preciso ser hatch compacto. Um rápido passeio pelo configurador da Volkswagen permite montar uma opção de Saveiro Cross cabine dupla – lançada com o novo Fox — com itens que a faziam custar R$ 62.890.
Um Fox custando mais que R$ 63.000? Quase o mesmo valor por uma Saveiro? E R$ 80.000 ou R$ 90.000 por um hatch 1.6 com motor aspirado? Será que as marcas perderam a noção? Para Paulo Garbossa, diretor da consultoria ADK Automotive, a resposta é não. “Ao aprimorar um veículo, você acrescenta opcionais que o consumidor provavelmente está buscando. Quem vai determinar se o preço é convidativo ou não é o comprador, que hoje está mais evoluído, instruído e sabe o que quer”, explica.
Antes de sair de casa para efetuar a compra, a dica é pesquisar e fazer simulações. Assim, o consumidor fica ciente do que pretende comprar e sabe quanto pode pagar. “Se todos disserem que determinado automóvel é caro demais para o que oferece, sem dúvida, a fábrica será obrigada a rever seus preços.” No fundo, diz Paulo Garbossa, é um aspecto positivo: quanto mais opções o mercado tiver, melhor.
Faça a tabelinha
Na hora de fechar a compra de seu 0 km, não se deixe levar pela conversa fiada. Faça uma tabela com os itens de série de cada modelo “finalista” e avalie se ele traz os principais equipamentos que você procura. Muitos modelos caros por aí não oferecem equipamentos relativamente simples mesmo em compactos, como sensor de estacionamento traseiro. Vale a pena colocá-lo como acessório? Quanto isso vai custar? Fora as marcas verdadeiramente premium, como Audi, BMW e Mercedes-Benz, raros são os veículos que alcançarão um patamar de qualidade que justificará o preço pago. Aí entra de novo seu gosto pessoal. E não tenha vergonha de pechinchar, de pedir desconto. Essa tabelinha vai ajudá-lo a tomar a decisão.