Depois de inúmeras aparições em programas de TV, propagandas para os Jogos Olímpicos e doses homeopáticas de informações na imprensa, a Nissan finalmente revelou tudo sobre o principal lançamento da marca neste ano: o inédito SUV Kicks. Oferecido em versão única, por R$ 89.990 (ou R$ 90.990 na versão limitada Rio que já está quase esgotada), o utilitário urbano conta com tecnologias inéditas no segmento para incomodar a liderança do HR-V e consolidar a Nissan de vez no Brasil. 

Além da missão de vender mais, o Kicks será a principal arma da Nissan para trazer maior rentabilidade à marca japonesa. E o maior retorno do investimento não vem só do preço (e da margem de lucro) maior. Por compartilhar diversas peças com a dupla March/Versa, o Kicks custa menos para fabricar que os líderes Honda HR-V e Jeep Renegade, por exemplo.

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Esse parentesco popular tem prós e contras, porém. A modificada plataforma V deu ao Kicks duas grandes virtudes dos irmãos menores: bom espaço entre-eixos e peso digno de compacto. Mas junto com toda leveza, vem um motor naturalmente menor. Neste caso, o mesmíssimo 1.6-litro com câmbio automático CVT que movimenta as versões mais caras de Versa e March.

O Nissan Kicks chega ao mercado brasileiro em versão única

Com apenas 42 kg a mais que o Versa, o Kicks passou por um leve upgrade mecânico e ficou com 3 cv e 0,4 kgfm a mais. Quase imperceptível no dia a dia, essa discreta melhoria terá mais utilidade para os concessionários da marca, que terão uma tarefa difícil ainda no começo.

As caretas que vi ao falar qual é a cilindrada do Kicks para alguns curiosos tendem a ser o primeiro desafio do jipinho mexicano em um mercado acostumado a 1.6 turbo, 1.8 e 2.0. “Apostamos no test-drive para atrair nossos consumidores”, explica Juliana Fukuda, gerente de produto do Kicks. Segundo a executiva, a presença do 1.6 não será oculta, mas terá menos destaque nas campanhas – justamente o contrário do que ocorre no Sentra.

Parte desse desafio será facilitada pelo design mais atraente do Kicks. “Em clínicas com clientes, observamos que nossos produtos não tinham personalidade”, conta Robert Bauer, chefe do estúdio de design da Nissan no Rio de Janeiro.

A versão SL será vendida por R$ 89.990,00

A carroceria que “nem parece um Nissan”, como disse um proprietário de HR-V, vem acompanhada de um recheio interessante. Ao contrário do líder japonês, o Kicks virá inicialmente com seis airbags e ar-condicionado digital de série. Junto deles haverá controle de estabilidade, sistema multimídia com GPS e o primeiro sistema de câmeras do tipo 360º em um carro do segmento.

O Kicks mostra o aprendizado da Nissan com os detalhes. Nele os vidros elétricos são todos do tipo um-toque e há material emborrachado na parte central do painel. Mas ainda há espaço para melhorias, que vão da ausência da trivial luz para o espelho no para-sol do passageiro até o cada vez mais essencial controlador de velocidade.

Por enquanto o Kicks virá importado do México apenas na versão SL (R$ 89.990) e na série limitada – e quase esgotada – Rio (R$ 90.990). Seus únicos opcionais são a pintura metálica, de R$ 1.300, e o teto laranja, de R$ 2.500. A chegada de mais itens e versões (incluindo uma manual) é esperada após sua nacionalização, que deve ocorrer até o início de 2017.

Um destaque do interior é o quadro de instrumentos digital

ESFORÇADO
Apresentações feitas, é hora de colocar o Kicks para enfrentar uma tarefa muito maior do que rodar quase 20.000 km atrás da tocha olímpica. Sem os holofotes da imprensa e a chama grega para abrir caminho, esse Nissan precisará brilhar por si próprio – e sem DRL, já que a luz diurna não será oferecida nem como opcional.

Os diversos equipamentos ajudam a compor a boa impressão que o visual chamativo provoca. Os materiais da cabine são agradáveis ao toque, e uma faixa de tecido que imita couro melhora a sensação de qualidade aparente do painel.

Há muito espaço para a cabeça e conforto para quatro adultos – como no March e Versa, a carroceria estreita deixa menos espaço para os ombros do quinto passageiro. Ao menos há Isofix nos bancos traseiros e cinto de três pontos e encosto de cabeça para todos.

O motor é 1.6 de 115 cv e até o momento não existe outra opção

A suspensão e direção macias estão mais para HR-V do que Renegade. Isso compensa a rigidez maior dos pneus de perfil baixo e torna o dia-a-dia urbano agradável na maior parte do tempo. O isolamento acústico é eficiente e, ao menos na unidade avaliada, o acabamento lidou bem com as inevitáveis torções de carroceria em valetas diagonais e entradas de garagem.

Na cidade o 1.6 oferece o suficiente para lidar com o trânsito, e ganhou duas novidades em relação aos irmãos menores. A primeira é lógica: o antigo botão “overdrive off”, que reduz a amplitude das relações de marcha do CVT, passou a se chamar “Sport”. Outra mudança é que, quando o acelerador é pressionado até passar da metade do curso, o câmbio passa a simular seis marchas.

Os truques funcionam para transmitir sensação de desempenho, mas há um detalhe: para manter 60 km/h com ar-condicionado ligado e quatro pessoas, você manterá o pedal do acelerador mais pressionado do que em um modelo mais forte. Há uma sensação de que a reserva de potência é menor no Kicks.

Tamanho do porta-malas é parecido com o do HR-V, concorrente direto

E isso não fica só no campo das impressões. Em nossos testes na pista o Kicks entregou em nossa pista números próximos ao do Peugeot 2008 1.6 automático. Ele superou o Renegade Flex automático, mas repetiu o péssimo desempenho em frenagens do rival pernambucano. Ponto negativo para o mais barato (mas quase sempre menos eficiente) freio a tambor traseiro.

O lado bom é que o Kicks compensa o desempenho modesto com um consumo superior à concorrência. Em nosso ciclo (com etanol) ele fez 7,6 km/l na cidade e 11 km/l na estrada, índices superiores aos rivais. Pena que, em nome da contenção de custos e melhor aproveitamento do espaço interno, a Nissan aproveitou isso para manter o modesto tanque de 41 litros do March e Versa. Resultado: uma autonomia de 373 km.

Números do teste e ficha técnica do Kicks

Na balança, o Kicks não surpreende nem decepciona nos quesitos que mais importa para seu consumidor. Ele, porém, oferece um ar de novidade que a concorrência já perdeu e pode conquistar pelo carisma de seu desenho e por truques inteligentes, como o forro do compartimento de bagagem que pode ser aberto do lado de dentro para pegar uma mochila sem precisar abrir a tampa do porta-malas ou rebater o banco.

O plano de pós-venda com revisões a preço fechado e a garantia de três anos também ajudam a atrair o consumidor. O total dos serviços periódicos até os 30.000 km é de competitivos R$ 1.417, considerando seu segmento. Superando o preconceito contra o motor 1.6, o Kicks pode honrar seu nome e ser um chute para fazer a concorrência se mexer.

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