Texto: André Schaun

Surpreendente, SUV de sete lugares mira público de VW Tiguan, Mitsubishi Outlander, Hyundai Santa Fé e Kia Sorento

“Para o que se espera de um carro da China, é bom”, esse costuma ser o comentário positivo de um consumidor sobre um modelo chinês. Mas a evolução de carros chineses nos últimos anos tem sido grande, mesmo com períodos conturbados no meio do caminho. Com a ambição de entrar no mercado de luxo do Brasil, a JAC Motors lança seu primeiro SUV grande voltado para este segmento, o T80, que conta com um motor 2.0 turbo, 4 cilindros, 210 cv potência, 30,6 kgfm de torque, acoplado ao câmbio DCT de dupla embreagem de 6 marchas, e capaz de comportar até sete passageiros.

Será que a JAC conseguiu criar um modelo capaz de despertar o interesse do público brasileiro neste segmento de luxo? A resposta você terá na matéria, mas a missão não é nada fácil, levando em consideração que na faixa de preço do T80, R$ 139.990, temos modelos já consagrados e de confiança do consumidor.

Falando em confiança, a comercialização dos carros asiáticos no Brasil nas últimas décadas foi algo notório. Isso vale tanto para qualidade quanto para volume de vendas e de revenda. Japoneses e sul-coreanos já estão consolidados e com uma moral para lá de positiva, porém, não podemos dizer o mesmo dos chineses, país que alguns ainda torcem o nariz no que se diz respeito à qualidade, durabilidade e desvalorização de seus veículos. Mas comparar carro chinês com coreanos e japoneses é uma disputa desleal, por enquanto até o momento, pelo tempo de casa.

Missão T80

Toyota e Nissan chegaram no final dos anos de 1950 no Brasil. Na década de 1970 chegou a Honda, comercializando apenas motocicletas, e que na década de 1990 começou a importar automóveis para o país, após a abertura das importações; o mesmo vale para a Mitsubishi, que chegou ao país em 1991. Hoje, essas quatro marcas representam sinônimo de qualidade e ótimo valor em revenda. Toyota, Honda e Nissan estão entre as 10 marcas mais vendidas do Brasil em 2018.

Um pouco mais recente que a onda nipônica, foi a dos sul-coreanos, com a Hyundai e a Kia, também a partir dos anos de 1990. Muitos olhavam meio de lado, mas hoje se rendem às duas, principalmente a Hyundai, que em 2018 foi a sexta marca mais vendida do Brasil e teve o HB20 como segundo carro mais emplacado do país, com 105.506. Entre idas e vindas, também temos a Ssangyong, que desde 1995 já saiu e voltou três vezes para o Brasil.

O fenômeno chinês no Brasil é muito mais recente do que das conterrâneas de continente, acontecendo de vez nos últimos 10 anos, encabeçadas por Chery, Lifan e JAC Motors. Das três, quem vendeu mais em 2018 foi a Chery, 8.669 modelos, seguida da JAC, com 3.864, e Lifan, com 2.274. Portanto os chineses ainda têm um longo caminho para ter o reconhecimento de outras marcas asiáticas.

O grande diferencial de marcas asiáticas no Brasil é a fidelidade criada em seus clientes, já perdi a conta de quantas vezes ouvi de consumidores de carros asiáticos a seguinte frase: “Não troco mais de marca, no máximo de modelo”. Isso é o que falta para a JAC no Brasil, a fidelidade, e a tacada do T80 para o segmento de luxo foi bem ousada. Talvez esse seja o modelo que o consumidor comece a olhar a marca com outros olhos, porque ele realmente é surpreendente.

Inspiração germânica!

Embora seja oferecido na faixa de preço de SUV’s médios de 5 lugares, como Hyundai New Tucson e Kia Sportage (ambos com 4,48 m de comprimento), Mitsubishi Eclipse Cross (4,40 m) e Jeep Compass (de 4,42 m de comprimento). O JAC T80 possui 4,79 metros de comprimento, 1,90 m de largura, 1,76 m de altura e 2,75 m de distância entre-eixos, o que o faz mirar SUV´s de 7 lugares e categoria superior, como o Volkswagen Tiguan (4,70 m), Hyundai Santa Fe (4,69 m), Kia Sorento (4,80 m) e Mitsubishi Outlander (4,70 m).

O visual, que é um fato determinante para um carro – ainda mais em segmento de luxo – foi desenvolvido no Centro de Design da JAC Motors, em Turim, Itália, trazendo linhas bem modernas ao SUV. A dianteira traz um capô curvilíneo bem vincado, uma enorme grade com quatro barras cromadas cruzando de ponta a ponta, faróis com acendimento automático e regulagem com luzes diurnas de LED (DRL). Para completar o desenho da dianteira, há um filete cromado que faz o contorno em toda a grande e liga os dois faróis.

A traseira conta com lanternas em LED, com desenho semelhante ao do Audi Q5 – primeira indicação de inspiração em modelos alemães –, totalmente integradas à tampa do porta-malas, e uma barra cromada que faz a ligação entre as duas lanternas. As rodas são de liga leve aro 18” acopladas pneus 235/60 R18.

O interior é bem extravagante, mas não tira sua elegância. O painel é macio e revestido em couro, suas entradas de ar com saídas circulares são visivelmente inspiradas nos modelos da Mercedes-Benz; quatro centrais e duas laterais, ao lado do motorista e do passageiro dianteiro. Há, no meio das quatro saídas centrais, um relógio analógico, que parece estar meio perdido e sem muito sentido. O painel ainda traz acabamentos imitando fibra de carbono, que poderia ter dado lugar a um black piano, e central multimídia de 10 polegadas. O porta-malas tem capacidade de 1.550 litros, mas se for configurado para os acomodar os sete passageiros, a capacidade cai para 620 litros.

O veredito

A posição de dirigir é boa e confortável, mas tem um defeito que não pode passar em branco, o volante não possui ajuste de profundidade. Seu torque máximo de 30,6 kgfm, que acontece entre 1.800 e 4000 rpm, não é muito empolgante, e o turbo demora para encher então, a potência leva tempo para desenvolver um desempenho que se espera de um carro turbo. As trocas são suaves e nas retomadas os trancos são pequenos e não incomodam. Mas o fator mais negativo do JAC T80 é seu freio, que tem um grande delay nas respostas.

Sua direção eletroassistida progressiva garante muito conforto e possui três modos de condução: leve, normal e pesada. Essa leveza é ótima na hora de manobrar, mas sua câmera 360° ajuda na perfeição da manobra. A acústica do carro é razoável e seu sistema de som é digno de um carro premium, porém, O infinity Premium Sound Sistem HI FI com 280 Watts RMS e 10 alto-falantes, está no pacote opcional, junto com o teto solar panorâmico, elevando o preço para R$ 146.980.

Em relação a conforto e itens de segurança, o T80 ‘vai muito, obrigado! ‘, oferecendo bancos dianteiros com ajustes elétricos, sendo o do motorista com memorização, resfriamento, aquecimento e massageador, sensor de chuva, sensor de estacionamento dianteiro e traseiro – além da já citada câmera 360° –, assistente de partida em rampa, controles eletrônicos de tração e estabilidade, seis air bags (frontais obrigatórios , laterais e tipo “cortina”) entre tantos outros itens. Mas os contras, são velhos conhecidos, como desempenho e sistema de frenagem.

Pagar quase R$ 150 mil em um carro chinês pode parecer arriscado e até insano para algumas pessoas, mas isso foi já foi dito para outras marcas asiáticas e hoje temos japoneses e sul-coreanos como referências no mercado. Será que chegou a vez do chinês? O T80 pode ser aquele modelo que fez os carros vindo da China serem vistos com outros olhos e ganhar uma confiança de um público que ainda não deposita muito suas fichas nesses modelos vindos do outro lado do globo terrestre. Têm defeitos? Sim, alguns bem incômodos, mas o conjunto da obra é surpreendente.

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