Raríssimo, conheça a história do carro lançado em 1959 para competir com o Fusca

No verão de 1979, na Costa Verde, no Litoral Sul do Rio de Janeiro, mais pre­cisamente na praia de Muriqui, Fernan­do Curvello e sua esposa caminhavam pela praia, quando ele viu um carro de longe, parado em uma praça e ficou curioso. “Quando eu bati o olho, eu achei que fosse um Gordini, e eu queria um Renault Dauphine, porque ele era mais raro e eu sabia que em pouco tempo seria difícil de achar um”, explica Curvelo.

No final da tarde, no mesmo dia, ele foi comprar pão em uma padaria naquela mesma região e viu o novamente o carro. “Quando eu vi mais de perto, reconheci que era um Dau­phine pelos detalhes, porque ele tinha algumas modificações, então fiz uma oferta para com­prá-lo”. A princípio, o dono não quis vender, mas Fernando conta que depois de um certo tempo, as filhas do proprietário disseram a ele que já falavam há algum tempo para o pai ven­der o Dauphine. Foi então que as negociações se encerraram pelo valor de 10 mil cruzeiros.

Fernando Curvello

Conheça a história do carro lançado em 1959 para competir com o Fusca, que tem um motor 845 cm³ de 26 cv de potência e câmbio de três marchas. Na época, Fernando morava em Belo Horizonte (MG) temporariamente, pois fazia um curso naquela cidade, mas um ano depois ele retornou ao Rio de Janeiro para o local em que mora até hoje, aos 70 anos, den­tro do campus da Universidade Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), no município de Seropédica, onde é professor dos cursos de Zootecnia e Veterinária.

Antes de contar a história do Dauphine no Brasil, é preciso contar a história da Willys-O­verland. A empresa abriu uma filial no País em 1952, chamada de Willys-Overland do Brasil, sediada em São Bernardo do Campo (SP). Mas suas atividades tiveram início apenas dois anos depois, em 1954, quando as linhas de mon­tagem começaram a colocar nas ruas o Jeep Willys, com peças originais dos Estados Uni­dos – o modelo era apenas montado no Brasil, não fabricado. Posteriormente, começou a im­portação da Rural e do Aero-Willys.

Mas, por serem carros de grande porte e na época o brasileiro não estar acostumado com um desses na garagem, a Willys teve a ideia de trazer um carro que tivesse mais o perfil que o mercado pedia na época. Foi então que em 1959, a empresa trouxe o francês Dauphi­ne para rivalizar com o Volkswagen Fusca e o DKW-Vemag. A Renault e a Willys fizeram um investimento de US$ 12 milhões na compra de maquinário, ferramentas e equipamentos para produzir o Dauphine no Brasil. O Gordini che­gou apenas em 1962, como uma evolução do Dauphine, já que a versão era capaz de gerar 32 cv de potência e tinha 4 marchas.

O Dauphine faz parte daquela primeira safra de carros produzidos no Brasil, do meio para o final dos anos de 1950. Os primeiros foram o Romi-Isetta e o DKW perua em 1956, no ano seguinte a Volkswagen iniciou a produzir a Kombi, no mesmo ano a Ford começou a pro­duzir seu primeiro caminhão, o F-600, e meses depois a picape F-100. Na mesma época, o número de automóveis produzidos no Brasil cresceu de maneira significativa, pois além do Dauphine, no inicio do período, a VW passou a produzir o Fusca.

Mas o charmoso Dauphine tinha um pro­blema: ele foi desenvolvido nas ruas francesas. Então com o solo irregular das ruas brasileiras – se já temos hoje, imagina há 60 anos –, o carro sofria e era conhecido por sua fragilida­de. Tanto que ele até ganhou o maldoso slo­gan “desmancha sem bater”, alusivo ao Leite Glória, famosa marca de leite em pó da época pela alta solubilidade, praticamente não reque­ria mexer para misturar com água.

“O meu modelo é todo original, só mexi em algumas coisas. Mas admito que eu só parei de ter problemas na suspensão há 15 anos, quando troquei as molas originais por molas do Chevrolet Chevette”, diz. O professor tam­bém diz que uma das maiores dificuldades foi deixar o modelo na cor original, que é verme­lho Imola, e isso só aconteceu em 1997, quase 20 anos depois de ter comprado o carro.

O carro de Fernando Curvelo é raríssimo, dificilmente alguém encontrará um Dauphine 1960, na cor original e com apenas 70 mil qui­lômetros rodados. Ele conta que pelo menos uma vez por semana sai com o carro. Mas, se­rá que ele vende?

“Uma vez vendi uma Rural Willys de 1970 para o jornalista Roberto Nasser, no Encontro de Autos Antigos Águas de Lindóia, em 2001. Me arrependi tanto que em 2002 comprei outra Rural, mas agora de 1973”, conta sorridente.

“Mas, e o Dauphine? Bom, o Dauphine é o último carro que eu venderia. Nunca fizeram uma proposta porque antes disso já digo que ele não está à venda”.

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