O contemplado não tem a obrigação de comprar o carro definido pelo seu grupo. O veículo pode até mesmo ser seminovo

Os consórcios de automóvel estão a todo vapor. Nunca houve tantos interessados em adquirir uma cota e apostar nas facilidades desse sistema, que é tido como uma invenção brasileira. Hoje, praticamente 2,5 milhões de pessoas estão participando de um consórcio de carro, mais que o dobro de 2009, quando o número era inferior a 1 milhão.

Esse crescimento é muito significativo. “O motivo é que o consumidor está mais consciente, aprendeu a fazer planejamento financeiro e pesquisa mais”, diz Paulo Roberto Rossi, presidente executivo da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac). Faz sentido: se por um lado o consórcio tem um custo financeiro menor do que as linhas de crédito bancário, por outro exige que o consumidor esteja preparado para esperar o carro por tempo indeterminado (veja quadro). Para Rossi, o aumento da taxa Selic (e, consequentemente, das taxas bancárias) e a inflação são motivos residuais que fizeram turbinar a procura por essa modalidade de compra.

 “Os consórcios se destinam para quem deseja um carro a médio ou longo prazo. Quem precisa dele imediatamente deve procurar um financiamento bancário”, afirma Rossi. De fato, são dois perfis diferentes de consumidor, e o aumento no número de participantes de consórcios revela uma busca por soluções menos imediatistas.

Outro fator para atrair interessados é o fato de que o contemplado não precisa necessariamente adquirir o carro definido em seu grupo. Na verdade, ele pode comprar qualquer modelo, inclusive usado, e com valor abaixo ao que consta na carta de crédito. “Algumas administradoras aceitam a compra de um automóvel de preço inferior ao crédito para que, com a diferença, seja possível pagar IPVA, despachante e até contratar o seguro”, revela o presidente da Abac. Outra vantagem é que o consórcio pode ser também uma forma interessante de poupança.

Foi o caso do gerente comercial Ricardo Bueno Tobhias. Depois de fazer muita conta, chegou à conclusão que, diante dos custos e dos prazos, era mais interessante entrar em consórcio do que fazer um empréstimo para adquirir um imóvel. Entrou em três ao mesmo tempo e, ao final de 36 meses, já era proprietário de três carros. Liquidou dois deles e, com o valor, adquiriu uma casa. “Eu não tinha nada, mas, em três anos, passei a ter um imóvel e um carro”, afirma, feliz da vida.

54% dos clientes de consórcio têm renda familiar entre quatro e dez salários mínimos

A maioria é classe C
Hoje, existem 160 administradoras de consórcio operando no país, sob a supervisão do Banco Central. Ou seja, é muito mais difícil sofrer golpes aplicados no mercado, como ocorria antigamente. Mesmo assim, é sempre bom pesquisar empresas confiáveis, inclusive conversando com consumidores já contemplados. Também é importante, segundo Rossi, buscar as melhores condições oferecidas pelas administradoras.

Em média, elas cobram 0,218% ao mês sobre o valor de crédito. E, normalmente, exigem um fundo de reserva e seguro de vida — itens que, dependendo da administradora, podem ser opcionais. “Em qualquer caso, aconselhamos uma leitura rigorosa do contrato, antes de assiná- lo”, recomenda Rossi.

Uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Quorum Brasil revelou o perfil médio do consumidor de consórcios, trazendo à tona mais um motivo para o crescimento do setor. A classe C aparece como o maior cliente da modalidade, totalizando 54% do total de consorciados, com renda familiar entre quatro e dez salários mínimos. Quase metade dos participantes (49%) consideram o consórcio uma opção de investimento, ao passo que a outra parcela atribuiu a adesão ao planejamento financeiro.

A pesquisa apontou também as principais razões das adesões: boa imagem da administradora, acesso fácil a assembleias e informações e suporte administrativo quando acontece a contemplação. Além disso, o consórcio foi o terceiro colocado como investimento recomendado — atrás apenas de compra de imóvel e aplicação na caderneta de poupança.

Quanto você gasta e ganha

Veja uma simulação tomando por base os valores médios praticados no mercado pelas administradoras de consórcio:

  • Valor do carro: R$ 30.000
  • Número de parcelas: 60
  • Taxa de administração: 0,218% ao mês
  • Reajuste anual: 3% (estimativa)
  • Parcela inicial: R$ 565,30
  • Parcela média: R$ 600,25
  • Parcela final: R$ 636,25
  • Total pago: R$ 36.015,05
  • Variação: 20,05%

Invenção brasileira
Ainda que seja um modelo de investimento coletivo, o consórcio, no formato que existe atualmente, é uma invenção brasileira. Em 1962, um grupo de funcionários do Banco do Brasil foi pioneiro nesse sistema. A indústria automobilística ainda estava engatinhando, e o financiamento era caro, quase impraticável. Assim, o grupo se reuniu e bolou a modalidade de cotas com um sorteio mensal.

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