Honda e Citroën são as únicas marcas que ainda oferecem opções de câmbio manual para sedãs médios no Brasil. Todas as outras já aposentaram o equipamento em favor de soluções automáticas, robotizadas ou continuamente variáveis. Quem perde com isso? Pouquíssima gente, uma vez que as versões manuais deste segmento, que agora só tem dois representantes, correspondem, geralmente, a menos de 5% das vendas totais dos modelos.
Ainda assim, a realidade é triste para quem gosta de sentir prazer ao dirigir. Não que as caixas automáticas sejam necessariamente entediantes, mas considerando a natureza mais conservadora dos sedãs médios, um conjunto com câmbio manual para explorar motores acima de 150 cv, 160 cv já entrega um comportamento mais interessante para eles. No caso do Citroën C4 Lounge THP, com motor turbo de 173 cv, o carro fica muito mais divertido.
ARISCO
O C4 Lounge manual é brutal na hora de entregar seu torque. Com o pico dos 24,4 kgfm disponível logo cedo às 1.400 rpm e uma primeira marcha bem curta, as saídas de semáforos são sempre abruptas e não raro o sedã destraciona levemente, tamanho é o esforço que ele faz para entregar a potência às rodas da frente.
Esta característica pode soar como uma vantagem, afinal, agilidade é o que não falta nesta versão do C4 Lounge, mas a verdade é que para quem mora em grandes centros urbanos, ficar preso no “anda e para” do trânsito com esta arrancada mais nervosa pode cansar mais o motorista. Esta é uma das situações em que o C4 te lembra porque você deveria ter comprado o automático (a outra é na hora de vendê-lo…).
No entanto, em condições mais livres de tráfego, como em rodovias, o C4 Lounge manual é puro prazer. Há ótima elasticidade na terceira e quarta marchas para facilitar ultrapassagens sem sentir perda de fôlego do motor, e o câmbio ainda dispõe de uma função overdrive desempenhada pela sexta marcha que mantém o giro do motor mais baixo a 120 km/h. A única ressalva do câmbio são os engates que, embora precisos, poderiam ser mais curtos.
Na nossa pista de testes, o C4 Lounge manual precisou de 8s84 para acelerar de 0 a 100 km/h. Isso é imperceptíveis 0s15 mais lento que a aceleração da versão automática de seis marchas. A grande vantagem do câmbio automático — já esperada — está nas retomadas, que chegam a ser até quatro segundos mais rápidas do que as do C4 com câmbio manual.
Na hora de freá-lo, o C4 mostra outra virtude: a sensibilidade do pedal central é bem afinada. A resposta dos freios é imediata e foram percorridos 39,9 m para pará-lo de 100 km/h a 0 km/h, distância boa para um sedã de 1.430 kg. Na prova de fading com o veículo carregado com 200 kg, a diferença entre pior e a melhor frenagem foi de apenas 1,34 m. Excelente.
O C4 Lounge só não nos surpreendeu mais por causa da referência imposta pelo Civic Sport neste nicho de duas opções. Falta para o Citroën uma direção um pouco mais precisa (ela é levemente mais folgada ao centro de seu diâmetro de giro) e uma posição de dirigir menos verticalizada para alcançar o patamar do Civic. O sedã japonês também leva vantagem devido à vetorização de torque que contribui para um contorno mais preciso das curvas, recurso indisponível no C4, mas isso não significa que o francês seja instável. Pelo contrário, sua carroceria não produz qualquer rolamento ou torção anormal em curvas (em velocidades condizentes com o ângulo da via, obviamente).
SIMPLÃO
O interior da versão mais barata do C4 Lounge é bem espartano visualmente. O acabamento em um tom único e os comandos do rádio e do ar-condicionado compõem um design já ultrapassado na cabine para o C4 Lounge. Ao menos a construção do habitáculo é decente, sem falhas ou rebarbas aparentes. Há, inclusive, materiais mais macios ao toque, como o painel emborrachado, tecido no apoio de braço das portas e couro no apoio central, o que compensa a (má) impressão de qualidade do interior do carro.
Destaques da cabine do C4 Lounge são os bancos dianteiros, que envolvem confortavel e seguramente o motorista. Os de trás poderiam ser mais anatômicos, mas pelo menos há bom espaço para as pernas e cabeça para até três adultos (o espaço para os ombros, neste caso de lotação máxima, será limitado).
DADOS FÁBRICA | Citroën C4 Lounge THP manual |
Motor | Diant., trans., turbo., flex, 16V |
Cilindrada | 1.598 cm³ |
Potência | 173 cv a 6.000 rpm |
Torque | 24,4 kgfm a 1.400 rpm |
Câmbio | Manual, 6 marchas |
Suspensão | McPherson/eixo de torção |
Peso vazio | 1.430 kg |
Porta-malas | 450 l |
Tanque de combustível | 60 l |
Pneus (veículo testado) | Pirelli Cinturato P7 205/55 R16 |
Dimensões (comp./larg./alt.) | 4.621 mm/1.789 mm/1.505 mm |
Entre-eixos | 2.710 mm |
À venda por R$ 75.790, a lista de equipamentos do C4 manual segue o padrão modesto da versão. Nenhum equipamento de série surpreende, mas pelo menos cumprem o mínimo de conforto e conveniência esperada para este segmento. Entre eles, estão: controle de estabilidade, assistente de partida em rampa, faróis e lanternas de neblina, piloto automático com regulador de velocidade, LEDs para uso diurno, trio elétrico, volante com regulagem de altura e profundidade, rádio com conexão bluetooth e entrada USB e rodas de liga leve de 16”.
NOSSAS MEDIÇÕES | Citroën C4 Lounge THP manual |
Aceleração | |
0-80 km/h | 5s97 |
0-100 km/h | 8s84 |
0-120 km/h | 11s84 |
Retomadas | |
40-100 km/h em 3ª marcha | 7s71 |
60-120 km/h em 4ª marcha | 13s20 |
80-120 km/h em 4ª marcha | 5s87 |
Frenagem | |
80-0 km/h | 25,22 m |
100-0 km/h | 39,67 m |
120-0 km/h | 55,86 m |
Consumo (etanol) | |
Urbano | 7,7 km/l |
Rodoviário | 10,6 km/l |
Médio ponderada | 9,0 km/l |
Não é novidade que os preços dos carros 0 km assustam, sobretudo atualmente, portanto é natural que, por R$ 75.790, esperava-se um conteúdo mais interessante para o C4 Lounge. Mas se você leu esta matéria até o final significa que, pelo menos, você é um entusiasta de câmbio manual. Logo, não há fuga para você: sedã médio “de raiz” é este aqui ou o Civic Sport, que custa R$ 15 mil a mais. A boa notícia para a Citroën é que os detalhes em que o C4 Lounge THP deixa a desejar em desempenho podem ser compensados por essa grande diferença de preço.