Por Venício Zambeli, de Paul Ricard, França

Imagine conduzir um Porsche 911 Turbo em uma Autobahn ou um McLaren 12C, uma Ferrari F430, um Audi RS4 Avant, um Lamborghini Gallardo e um Lotus Elise de competição em um autódromo. Agora, imagine pilotar um carro de Stock Car ou um Fórmula Truck. Tive o privilégio de andar com todos esses carros em mais de 15 anos trabalhando como jornalista especializado de automóveis e automobilismo, mas eles agora passaram a ser meros coadjuvantes perante um carro que pilotei: um Lotus-Renault Fórmula 1.

 

O Lotus-Renault alcançou a velocidade de 269 km/h na reta de Paul Ricard.

Esqueça tudo que você possa pensar sobre como pilotar um carro. O Fórmula 1 é uma máquina totalmente diferente de tudo que se possa imaginar e é tão complexo que até para sair da posição estática é necessária uma série de procedimentos específicos.

 

Todo carro de Fórmula 1 pode ser considerado um protótipo, pois são fabricados em poucas unidades. Por isso, a sua condução é única e envolve muitos procedimentos.

O teste aconteceu no lendário circuito de Paul Ricard, na França, e foi proporcionado pelo programa iRace da Lotus F1 Team, em conjunto com a Renault, que é a fornecedora oficial dos motores para a equipe na categoria atualmente. E antes de assumir o cockpit do modelo Lotus-Renault Fórmula 1 (que utiliza um chassi Prost Grand Prix AP04 de 2001  com kit aerodinâmico do Renault R25 de 2005 e e motor Renault V10), todo o ritual de um verdadeiro piloto se preparando para um GP foi feito.

O maior desafio é controlar a “violência” de um F1 com suavidade.

Depois de reuniões com os instrutores, engenheiros e testes de aquecimento com um Fórmula Renault 2.0 de 185 cv (um verdadeiro mini-F1), adrenalina pura: era chegada a hora de ir para a pista com o Fórmula 1 da Lotus-Renault. Todo o equipamento de segurança e vestimentas originais a postos, entrei no carro. Ou melhor, “vesti” o carro. Sim, o habitáculo é apertado e a posição é igual como se estivesse sentado no chão, com as pernas esticadas para frente. Os cintos de segurança de cinco pontos são ajustados com força, e você fica amarrado no banco.

O motor Renault V10 de 700 cv “grita” de maneira ensurdecedora. Pesando apenas 580 kg, todo o torque é despejado com muita força no carro.

 

O motor é acionado por um mecânico fora do carro. E foi quando ele começou a “rugir” que a ficha caiu: o V10 de mais de 700 cv precisava ser domado. E não é fácil, pois toda a potência deve ser controlada com cuidado, para que as rodas motrizes traseiras não patinarem. O mais complicado é entender que o regime inicial de rotação do motor de um F1 deve ficar na casa dos 9 000 rpm para sair do lugar (o que, para um carro de passeio, é pra lá do limite máximo). A embreagem é usada apenas para a saída do carro, com o câmbio engatado em segunda marcha.

Saindo dos boxes, já senti a potência. Mas foi quando entrei na pista e comecei a subir as marchas é que senti o quanto o carro é brutal. O maior desafio é controlar toda a violência do Fórmula 1 com muita suavidade, pois as reações a todo tipo de comando, na direção, no acelerador ou no freio, são extremamente sensíveis.

Após a volta de aquecimento, chegou a hora de acelerar pra valer na reta dos boxes. As trocas de marcha eram executadas a quase 14 000 rpm, até a sexta marcha, e o motor “gritava” de maneira ensurdecedora.

Mas o que mais impressionou foi a eficácia dos freios de carbono: depois de chegar a quase 270 km/h, o acionamento preciso do pedal de freio faz com que o Fórmula 1 diminua a sua velocidade bruscamente em questões de segundos, a tempo de conseguir fazer o contorno da primeira curva grudado no chão. Este é outro ponto interessante, pois são nas curvas que se pode sentir a aerodinâmica trabalhando no carro, prendendo-o ao chão, como se estivesse em um trilho. O corpo do piloto, grudado no carro, sente toda a força G lateral.

 

Na reta Mistral, hora de acelerar novamente e sentir toda a vibração do carro, que tem suspensão com curso mínimo, pois você é praticamente uma continuação do chassi. Mais algumas curvas, e a visão de dentro do carro é espetacular, como nas câmeras que colocam dentro dos capacetes dos pilotos de F1 nas transmissões de TV. O controle da máquina é absoluto e prazeroso. Infelizmente, a bandeira quadriculada é agitada, e o retorno ao box com o Lotus-Renault é feito com os nervos ainda à flor da pele. Uma sensação indescritível. Afinal, o que pode ser mais incrível que pilotar um carro de Fórmula 1 no mundo dos automóveis? Acho que nunca haverá resposta…

 

Ficha técnica:

Velocidade máxima 270 km/h; Aceleração de 0 a 100 km/h 2s6; Consumo médio 2 km/l; Motor Renault V10, traseiro, longitudinal, gasolina; Cilindrada 3 000 cm3; Potência  máxima 700 cv a 14 000 rpm; Câmbio sequencial robotizado, 7 marchas; Tração traseira; Chassi fibra de carbono; Peso 580 kg ; Pneus Pirelli P Zero.

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