Carro de diplomata, primeira perua da história da marca e o sonho de consumo dos anos 60

“Considerado desde o seu lançamento ‘o melhor sedã do mundo’, os modelos SEL servi­ram a governos de vários países. Era o carro dos Governantes Alemães durante a queda do Muro de Berlim, em 1989. Vários sedãs SEL foram mandados às pressas à Berlim para ajudar na formação da nova Capital da Alemanha Livre. […] Este exemplar de 1988 chegou ao Brasil também via diplomática”, diz a placa, referindo-se ao Mercedes-Benz 560 SEL W-126, que estava bem na minha frente. Ao lado dele, outros dois carros, o conversível “Pagoda” 280 SL, e a perua 300 TD.

A história da Mercedes com governantes vem de décadas, mas o Classe SEL, em particular – produzido de 1980 a 1992 –, ficou marcado por ser um modelo icônico de autoridades ao redor do mundo. Aqui no Brasil, com as importações fe­chadas, de 1976 a 1990, os carros que vinham do exterior eram exclusivos para serviço de autorida­des, principalmente de embaixadas e consulados; a única maneira de um cidadão comum conseguir ter um desses modelos na garagem era entrando em uma fila.

O embaixador ou cônsul tinha que ficar no mí­nimo três anos com o carro para poder vendê-lo. Se a venda acontecesse antes do prazo, era con­figurado comércio, e isso era fora da lei. Vinham no máximo 40 modelos por ano, então a disputa era muito grande. Quando o carro era comprado no primeiro ou no segundo ano, o novo proprietá­rio deixava o veículo no nome do diplomata ou do embaixador. Isso acontecia, principalmente, com modelos vindos de países pequenos da África. Como é o caso de um empresário da época, que comprou o carro antes de encerrar o período de três anos, porque o embaixador foi mandando para outro país, e circulava com uma carta no porta-lu­vas dizendo que prestava serviço para a embaixa­da como motorista.

“Eu já estava procurando um Classe SEL há algum tempo. Quando fui ao Encontro Paulista de Autos Antigos, em Águas de Lindóia, no interior de São Paulo, logo no primeiro dia, quando fazem a montagem da exposição, eu vi uma carreta chegar com um Mercedes 560 SEL dentro; o carro estava todo sujo, imundo. Quando bati o olho e vi aquela raridade, foi amor à primeira vista”, conta o eco­nomista Júlio Penteado. “Negociei com o dono ali mesmo e falei para ele nem descer o carro da car­reta e colocar em exposição, que agora era meu”, completa.

Interior Mercedes-Benz 560 SEL W-126

O Mercedes-Benz 560 SEL W126 de Penteado veio ao Brasil por meio da embaixada da Guiana, país no norte da América do Sul, em 1988. Ficou em Brasília por um tempo, depois veio para São Paulo, e foi parar nas mãos do proprietário que o vendeu para Júlio. Com um motor V8 5.6 de 308 cv de potência e 43 kgfm de torque e câmbio au­tomático, o economista diz: “Anda como um car­ro novo, compará-lo com algum outro sedã de 30 anos atrás é até covardia. Dos meus sete clássi­cos, os dois maiores xodós são os SEL, tanto este sedã, quanto o cupê”. Ele conta que o estado de conservação do carro é incrível, e que foi necessá­rio fazer apenas pequenas restaurações por conta do desgaste de algumas peças quando comprou o carro em Lindóia; o cinto de segurança teve que ser substituído, por exemplo.

Esse sinônimo de resistência pode ser compro­vado pelos modelos da Mercedes exportados para o Oriente Médio e países do Norte da África, onde foi um fenômeno de vendas na década de 60 e 70. “Nessas regiões têm muitos Mercedes rodando até hoje por um motivo específico: robustez. Eles são resistentes o suficiente para pegar altas temperatu­ras, deserto, sal e solos prejudicados, então esses povos amam modelos Mercedes e andam com o mesmo carro há décadas”, explica Elias Nemer, proprietário de um Mercedes-Benz 300 TD.

O advogado de origem libanesa conta que quando vai ao Oriente Médio cansa de ver modelos igual ao seu: “Os carros estão caindo aos pedaços, porque são de uso diário e lá eles têm outra relação com o veículo, não é igual a nós, brasileiros, que somos colecionadores e cuidamos de cada deta­lhe do carro”, comenta. E o cuidado dele com seu 300 TD não é para menos: além de ser o primeiro station wagon (no Brasil o modelo ganhou o apelido de perua) da história da Mercedes, seu modelo é Diesel, o que é raríssimo no Brasil. “No país tem menos de dez, chutando alto”, exalta.

Apresentada para o mundo no Salão de Frank­furt em 1977, na Alemanha, a Mercedes dava início a uma história de sucesso ao mostrar sua primeira perua com capacidade para sete lugares, que teve o lançamento no mercado apenas no ano de 1980, contando com um motor cinco cilindros 3.0L, de 115 cv de potência e câmbio manual de quatro marchas. Elias conta que o modelo sempre foi um sonho desde criança, e diz como foi que ele conse­guiu achar essa raridade que tem como origem a embaixada da Áustria.

Interior Mercedes 300 TD

“Ela veio até mim em um jantar entre amigos no Shopping Iguatemi. Quando cheguei ao estacio­namento e vi o 300 TD, na mesma hora eu pen­sei: “Esse carro vai ser meu”. Eu não tinha ideia de quem era o dono, mas ele vai ser meu, pensei. Nem que eu acampe no estacionamento do shopping e espere o proprietário aparecer”, brinca. “Cheguei na mesa, não cumprimentei ninguém, e perguntei se aquele Mercedes era de alguém”, completa.

O carro era de um amigo e tinha acabado de passar por uma restauração recentemente; e não estava à venda. Foi uma negociação que durou alguns meses até que o advogado conseguiu, en­fim, ter aquela relíquia em sua garagem. “Eu nunca vou vender, nunca. É um imobilizado meu, não vou vender porque eu não vou ter outra igual. Podem oferecer o dinheiro que for”, diz Elias, com convic­ção. Sua assinatura no carro fica por conta dos adesivos espalhados pela carroceria, de diversas regiões do mundo, principalmente Oriente Médio e África.

“O meu sonho era o modelo a diesel pelas van­tagens desse tipo de combustível: durabilidade, baixo consumo, autonomia maior e para o diesel sofrer adulteração é muito mais difícil. Além, cla­ro, do modelo ser um ícone mundial”, explica Elias, que tem mais quatro clássicos Mercedes.

Falando em sonho de consumo, a grande sen­sação da Europa nos anos de 1960 foi um carro da Mercedes que chegou ao mercado do velho con­tinente recheado de inovações e modernidades para aqueles tempos, o 280 SL, ou simplesmente “Pagoda”. Apresentado no Salão de Genebra de 1963, o modelo conversível com mais de 50 anos atualmente não parece nem um pouco ultrapassa­do.

O protagonista dessa façanha foi o designer automobilístico francês, Paul Bracq, que criou um carro com capota inspirada nos templos orien­tais, os pagodes – o modelo tem duas capotas, a de lona, e a rígida, que o motorista tira quando quer andar no modo conversível. Para quem não se lembra o que é, e liga este nome apenas com ao gênero musical, os templos de países asiáticos possuem um teto com as laterais elevadas, e esse é o formato semelhante da capota rígida do 280 SL, com teto côncavo e laterais mais altas, para dar mais conforto aos passageiros, de acordo com a marca. “O apelido de Pagoda é universal, inclusi­ve no Japão, não é coisa de brasileiro não”, explica o arquiteto Celso Zaffarani, proprietário de um Pa­goda 1969.

“Eu sou novato nesse ramo de ‘colecionador de clássicos’, o Pagoda é o meu primeiro carro, mas foi escolhido a dedo, por toda história que cerca o modelo. Pertenceu a uma estilista france­sa do Rio Grande do Sul, chegou a ir para Punta del Leste, no Uruguai, e agora está na minha mão desde 2016”, diz.

O arquiteto conta que é muito comum esse intercâmbio de carros entre os países, e no caso dele, por se tratar de um modelo com mais de 50 anos, algumas restaurações foram feitas ao longo dos anos. “A estilista cuidava muito bem dele e tra­zia peças direto da Champs-Élysées, em Paris, e eu tenho todos esses documentos e comprovan­tes guardados comigo, como arquivo histórico do carro”.

Mercedes Pagoda

“É design clássico, mas muito moderno e atual, inovador de conceito para a época. Foi um fenôme­no! É um carro leve, feito quase todo de alumínio, com um motor 2.8 L de 170 cv de potência, câmbio manual de quatro marchas, peso de apenas 1300 kg e freio a disco nas 4 rodas. Para 69 é totalmente inovador com uma série de avanços de engenharia e design”, fala. Desde quando comprou o conver­sível, Celso conta fez leves reparos na pintura e al­gumas manutenções mecânicas, tudo com peças originais direto da Alemanha, da própria Mercedes, do Classic Center. “Tudo, absolutamente tudo que precisamos, eles fornecem”, ressalta.

A Mercedes possui três departamentos vol­tamos para carros clássicos, dando suporte para proprietários do mundo inteiro para preservar a identidade e o patrimônio histórico da marca alemã. Um Classic Center fica em Fellbach, Alema­nha, outro em Irvine, Estados Unidos, e recente­mente abriu outro em Sintra, Portugal.

“A Mercedes tem um banco de dados gigantesco. Mas para qualquer coisa que você precisar, tem que ter o número do chassis, senão, não consegue nada. Se não tiverem a peça para pronta entrega, eles mandam fazer a original. Por isso vemos tantos clássicos da Mercedes andando pelo mundo todo. O apoio que eles dão para qualquer colecionador é algo surreal, tem todo um carinho especial”, explica o Presidente do Mercedes Club Brasil, na regional de São Paulo, Jorge Sawaya.

O Mercedes Club Brasil é o único clube brasileiro homologado pela Mercedes da Alemanha. Existe há 14 anos e conta com cerca de 150 sócios em São Paulo e cerca de 30 em Porto Alegre, regional aberta no ano passado. “Uma vez por ano a Mercedes faz um convite para irmos até a Alemanha, a uma reunião de presiden­tes do mundo inteiro, que são mais ou menos setenta no total, sendo que alguns países têm mais de um clube homologado”, afirma Sawaya.

Ser filiado ao Clube e ter a Carteira Internacional da Mercedes-Benz traz uma série de benefícios para os sócios, como descontos em lojas Mercedes, des­conto em museus Mercedes pelo mundo, notícias em primeira mão e press releases direto da Alemanha. Por mês, são realizados três encontros entre os as­sociados, contando até com pessoas que pertencem ao clube, mas não possui um modelo da marca da estrela de três pontas de Stuttgart.

Um ponto curioso, entre todos os proprietários entrevistados, incluindo Jorge Sawaya, foi o fato de não andarem com seus clássicos pela cidade de São Paulo com frequência, por diversos motivos, como más condições das ruas e segurança, o que não acontecia em tempos passados. Mas o que chamou mais atenção foi entender o porquê de vermos tan­tos clássicos da Mercedes pelas ruas – e em ótimo estado – e essa imortalidade que a marca criou em seus modelos para deixar a memória deles sempre viva pelos quatro cantos do mundo.

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