Mirando o público PCD, taxistas e motoristas de aplicativos, os automáticos Toyota Etios Sedã X e Volkswagen Voyage 1.6 provam que acessibilidade e praticidade podem custar menos

Texto: Fernando Lalli

Fotos: Renan Senra

Para quem trabalha no transporte individual de pessoas, seja táxi ou por aplicativos de celular, ou convive com limitações físicas que ainda permitem dirigir, ter um carro automático está longe de ser um luxo. Visando essas duas vertentes de consumidores, há cada vez mais opções de veículos dotados de câmbios desse tipo, e a preços mais baixos.

Estrategicamente posicionado no mercado, o Toyota Etios Sedã X (R$ 59.990) é o três-volumes de menor preço entre os que possuem câmbio totalmente automático. Por esse valor, o pacote de assistências ao motorista é interessante: traz assistente de subida em rampa, distribuição eletrônica de frenagem, controles de estabilidade e tração – esses dois últimos itens até 2014 não estavam nem na linha Corolla.

Quanto aos equipamentos de conforto, a versão básica satisfaz: ar-condicionado, retrovisores externos com ajuste elétrico, vidros elétricos nas quatro portas, travas elétricas, ajuste de altura do volante e apoio de braço para o motorista. Há de ser mencionado que o problema de leitura da posição centraldo painel de instrumentos foi eliminado pela tela digital que, ainda, agrega recursos bem-vindos de computador de bordo.

Após o reajuste de tabela da Volkswagen no início deste ano, o segundo colocado entre os sedãs automáticos de entrada ficou mais caro e foi ultrapassado por dois concorrentes. O Voyage 1.6 Automático, lançado em julho de 2018 por R$ 59.990, agora parte de R$ 62.900 – mais caro que Chevrolet Prisma Advantage (R$ 60.590) e Ford Ka Sedan 1.5 SE AT (R$ 61.190).

Optamos por não colocar neste comparativo o veterano da GM porque sua nova geração chega em breve, e o Ka Sedan, infelizmente, não estava disponível para empréstimo. Apesar do aumento de preço, não houve alteração na exígua lista de série do Voyage 1.6. Tem distribuição eletrônica de frenagem, alerta de frenagem de emergência, ar-condicionado e quase nada além disso.

Se você quiser volante com ajuste de altura e profundidade, vidros elétricos nas quatro portas, computador de bordo, retrovisores externos elétricos ou mesmo as rodas de liga leve da unidade das fotos, vai ter que apelar para pacotes fechados de opcionais que custam a partir de R$ 3.800.

Dois pesos, duas medidas

Motor Volkswagen Voyage

O Voyage tem sua maior fortaleza em seu trem de força. O motor 1.6 quatro-cilindros desenvolve 120/110 cv (etanol/gasolina) a 5.750 rpm e 16,8/15,8 kgfm a 4.000 rpm. Este exemplar da fa­mília EA211 faz boa parceria com o câmbio auto­mático de seis marchas – o mesmo de Gol, Polo e Virtus –, que possui opção de trocas manuais na alavanca e modo esportivo (“S”), que reduz o tempo de resposta do câmbio e estica mais as rotações antes de cada troca. Borboletas no vo­lante são opcionais.

Já o Etios traz motor 1.5 de 107/102 cv a 5.600 rpm e torque de 14,7/14,3 kgfm a 3.100 rpm. Seu câmbio automático de quatro marchas não permi­te trocas manuais sequenciais, só escolha das marchas em função automática — “D”, 1ª à 4ª; L, 1ª à 3ª; “2”, 1ª à 2ª; “1”, em que fica só em 1ª.

Nos resultados do teste de pista instrumenta­do da Revista CARRO, o Voyage 1.6 Automático foi em média 2 segundos mais rápido em cada uma das três provas de retomada (40 a 100 km/h, 60 a 120 km/h e 80 a 120 km/h) e fez o ze­ro a 100 km/h em 11s32, contra 11s97 do Toyota. Porém, vale lembrar que nossos resultados de pista sempre são obtidos no modo de condução mais rápido de cada carro, ou seja, testamos o VW com o câmbio em modo “S” e não em “Dri­ve”. Mesmo assim, a diferença para o Etios, que não tem esse recurso, não foi tão significativa.

Motor Toyota Etios

O acerto do sedã da Toyota fabricado em So­rocaba (SP) é bem afinado com a proposta urba­na. Há torque suficiente em baixas rotações para uma tocada confortável, seja em saídas de se­máforos ou retomadas. Não há tranco nas mu­danças, mesmo em reduções mais incisivas. Se comparados em velocidade de cruzeiro em rodo­via, a rotação de ambos é igual: 2.200 rpm a 100 km/h. O motorista só se lembra que “faltam” duas marchas ao Etios Sedã quando enfrenta si­tuações de ultrapassagem ou com o carro muito carregado.

A explicação está no baixo peso do Toyota (962 kg), o que contribui para uma relação peso­-potência favorável de 9,02 kg/cv. Claro, o mode­lo da VW fabricado em Taubaté (SP) tem mais força à disposição e é mais ágil em todas as si­tuações, mas como é 96 kg mais pesado, sua re­lação de 8,82 kg/cv não é tão superior assim. Um reflexo disso está no melhor consumo de etanol pelo modelo da Toyota. Com o carro vazio e o ar­-condicionado desligado, o Etios Sedã faz 8,3 km/l na cidade contra 7,1 km/l do Voyage. Em percurso rodoviário, atinge exatos 13 km/l versus 12,2 km/l do VW.

Entretanto, considerando os principais públi­cos-alvo desses dois modelos, autonomia é um ponto importante. E o Voyage tem uma diferença significativa na capacidade de seu tanque de combustível: carrega 55 litros, enquanto o Etios Sedã leva apenas 45 litros. Considerando o con­sumo médio dentro da norma PECO (55% na ci­dade e 45% em rodovia), o VW alcança autono­mia média de 517 km com etanol. Sob os mes­mos parâmetros, o modelo da Toyota pode atin­gir 468 km sem abastecer.

Ergonomia é importante

Detalhes de acessibilidade que seriam relevados por outros consumidores devem ser levados em conta quando se considera o público PCD. No Vo­yage, a chave de ignição é excepcionalmente dura de se girar e o ajuste de altura do banco precisa ser feito “aliviando” o peso do quadril sobre o as­sento – para quem tem dificuldade em apoiar o peso nos joelhos ou cotovelos, é uma movimenta­ção difícil e exige que o posicionamento do banco seja feito antes de se sentar no carro. O banco do motorista do Etios Sedã é mais confortável e pro­porciona mais apoio para a região lombar e qua­dril, mas o ajuste de altura do volante poderia ser melhor: a coluna cai de uma vez quando destrava­da e o curso do ajuste é curto.

Quase tudo é opcional
O Voyage 1.6 AT cedido para fotos continha pacote de opcionais bem vasto. Multimídia, ajuste de altura do volante, vidros elétricos nas portas traseiras, computador de bordo – tudo isso é cobrado à parte, o que eleva bastante o preço final do sedã da VW.

Porém, conduzir o Toyota por longos perío­dos cansa menos graças à direção eletroassisti­da. A Volkswagen ainda peca por manter a assis­tência de direção hidráulica, o que a faz mais pe­sada nas manobras em baixa velocidade. Seu diâmetro de giro também é 1 metro maior (10,8 m contra 9,8 m do Etios). É verdade que a dirigibili­dade do Voyage é surpreendentemente boa para um modelo veterano, fruto da suspensão acerta­da mais para a estabilidade em curva do que pa­ra o conforto. A escolha de pneus 195/55R15 de série não é por acaso. Para efeito de compara­ção, os pneus do Etios Sedã são de medida 175/65R14, completamente diferentes.

Detalhes essenciais
Volante vem de série com regulagem de altura e a direção é eletroassistida. Painel de instrumentos digital e computador de bordo melhoraram a vida do motorista do Etios e também equipam de fábrica a versão de entrada. O rádio é vendido como acessório.

A idade do projeto do sedã da VW pesa deci­sivamente no espaço interno. Seu entre-eixos de 2,46 metros é curto demais para oferecer um es­paço razoável para as pernas dos passageiros de trás. A coisa é bem diferente no Etios Sedã que, além de ser mais comprido (mede 4,36 m versus 4,21 m do VW), tem 2,55 m de roda a ro­da. Além de acomodar confortavelmente adultos de 1,80 m no banco traseiro, tem sistema Isofix de série para fixação de cadeiras infantis e dedi­ca cintos de segurança de três pontos a todos os ocupantes. No Voyage, o cinto para o passageiro traseiro central é de dois pontos.

Se ainda restar alguma dúvida sobre qual modelo é o mais adequado para quem precisa de um sedã automático de ofício pelo preço mais baixo possível, o tiro de misericórdia da Toyota vem no porta-malas: o Etios Sedã X tem capaci­dade para 562 litros de bagagem, enquanto o Voyage 1.6 para nos 480 litros. O veterano é bom de dirigir, mas, para ficar melhor do que o rival da marca japonesa, precisaria de muitos opcionais. Nessas condições, seu preço final começaria a esbarrar perigosamente no Virtus MSI Automáti­co – um carro maior, mais atualizado, dotado do mesmo trem de força e que, mesmo em versão básica, atende melhor que o Voyage às necessdades de qualquer público.

Veja a tabela de teste com os números de pista do comparativo Toyota Etios Sedã X AT x Volkswagen Voyage 1.6 AT:

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