Venda de carros usados cresceu 4,8% de janeiro a agosto na comparação 2014/2013

É corriqueiro no senso comum estigmatizar alguns perfis de donos de carros na hora de avaliar a procedência de um automóvel no mercado de usados. Mas será que basear tal preocupação em um estereótipo possibilita determinar o sucesso do negócio?

Segundo Luiz Augusto Federico, proprietário da Vip Motors, revendendora de veículos seminovos, não é raro um consumidor perder o interesse em efetivar uma compra por causa do perfil do antigo usuário do automóvel. “Nesse negócio a confiança conta muito. Os clientes perguntam se nós conhecemos o dono anterior, querem saber como ele era”, explica Federico.

Até mesmo nas transações entre lojista e particular, o vendedor pode sofrer um certo preconceito, que serve tanto para desvalorizar seu carro, como garantir a venda. “É claro que toda regra tem exceção, mas se é um veículo de um jovem, que já fez alguma mudança no carro, a gente não constuma comprar”, admite o empresário. O mesmo acontece para quem é recém-habilitado, “que muitas vezes não acompanhou a manutenção preventiva nas datas certas, ao contrário de alguém com mais experiência que costuma ficar atento a isso”. Sobre mulheres ou idosos, por exemplo, Federico explica que se os seus carros apresentarem riscos na lataria e outras avarias leves, os danos tendem a ser superficiais, preservando as características originais do carro. “A realidade é que todo mundo quer um veículo o mais original possível.”

Para o consultor automotivo, Leandro Mattera, o perfil do vendedor deve ter relevância mínima na hora de avaliar um modelo usado ou seminovo. “Várias peculiaridades podem influenciar nessa análise. Por isso, partir para estereótipos não é interessante”, alerta. Segundo ele, este é mais um indício de que o consumidor de automóveis ainda sustenta suas decisões por critérios subjetivos, em vez de uma investigação mais técnica. “As pessoas procuram carros compatíveis com a imagem que elas querem transmitir para os outros, em vez de priorizar as necessidades. Portanto, acabam virando bens de status perante à sociedade”, condena.

Paulo Garbossa, consultor da ADK Automotive, reforça a análise de Mattera. “Eu diria que 70% da decisão de compra do consumidor é baseada pela emoção”, garante. “Ninguém compra um carro só por que ele estava barato. A pessoa quer se ver nele, afinal, ela pretende passar muito tempo dentro do veículo.”

De acordo com Mattera, o importante é avaliar o estado de conservação do carro, “porque às vezes a busca por pechincha pode resultar em mais gastos com manutenção no futuro”. O consultor indica ainda a contratação de empresas que prestam serviços de vistoria e inspeção veiculares, incluindo o resgate do histórico de sinistros e ocorrências do automóvel interessado. 

Fernando Masetti, gerente de varejo da Dekra, uma das empresas de inspeção, defende esse procedimento: “Hoje, não é mais recomendável comprar um automóvel olhando apenas para o carro e o dono. É preciso checar o histórico de maneira objetiva. Não nos baseamos em preconceitos, e sim numa análise estritamente técnica”.

O consumidor está mais exigente

Entretanto, apesar da aparente falta de maturidade, Paulo Garbossa garante que o consumidor está bem mais antenado às novidades da indústria automotiva, aumentando, consequentemente, seu nível de exigência. “Existem diversas fontes de informação à disposição do consumidor, que contribuem para que ele busque mais qualidade”, aponta. Em consonância com o consultor, Leandro Mattera também identifica a tendência do mercado a dar mais liquidez a modelos com uma oferta cada vez maior de equipamentos. “Automóveis com design moderno, especialmente no segmento de entrada, também estão vendendo mais, pois atendem uma demanda que estava carente nesta categoria”, avalia.

Na prática, o proprietário da Vip Motors corrobora a análise dos consultores. Segundo Federico, consumidores que antigamente se preocupavam mais com a robustez do carro, agora já não abrem mão de itens de conforto e conveniência. “Estou no ramo há 25 anos e já vi pessoas desdenhando modelos automáticos por puro preconceito. Em compensação, atualmente, o cliente não quer nem olhar se ele tiver transmissão manual”, revela. “Hoje, quanto mais equipado melhor. Se chega algum carro ‘pelado’, muitas vezes nós nem nos interessamos, porque sabemos que será difícil revender.”

Mas Garbossa garante que o espaço para os modelos mais simples continuará existindo. “Sempre haverá alguém que quer passar da moto ou do ônibus para o primeiro carro, e esses modelos atendem a esta demanda. O interessante é notar que hoje o leque de opções do mercado ficou muito mais diversificado.”

Recuperação do setor

O mercado de seminovos e usados está se recuperando das baixas que a categoria sofreu com os incentivos à compra de 0 km nos últimos anos. Segundo dados da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), o total acumulado nos primeiros oito meses apontou um avanço de 4,8% no número de transações realizadas, em relação ao mesmo período do ano passado. Foram cerca de 8,4 milhões de unidades vendidas no país.

Só na região Sudeste, o crescimento foi de 3% na mesma comparação. Ainda segundo o relatório da Fenauto, os carros com até três anos de uso foram os preferidos pelos consumidores, com 263.022 unidades comercializadas só em agosto. Para Paulo Garbossa, consultor da ADK Automotive, as condições facilitadas para a compra de carros 0 km exaltam ainda mais as ofertas no segmento de seminovos e usados, que, com preços mais atraentes, podem registrar esta melhora. 

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