O funcionário público Admilson Nogueira tem um estranho hábito sobre o qual pouco comenta: frequentemente, vai à garagem de sua casa, senta-se num banco e “conversa” com o seu Fusca 76, a quem chama carinhosamente de Dudo. São assuntos íntimos: “Falo sobre meus problemas profissionais, planos de vida, relacionamentos com amigos e até de futebol”, confessa Admilson.

Aos 60 anos, já há dez anos viúvo e morando sozinho, Admilson encontrou essa maneira de repartir sua solidão com “alguém” que significou muito em sua vida. “Esse Fusca foi meu grande companheiro, esteve presente nos melhores momentos do meu casamento e da minha vida profissional. Ele me conhece como ninguém”, conta. “Muitas vezes, tenho dúvidas sobre uma decisão a tomar e, depois de conversar com o Dudo, tudo parece mais claro, mais fácil.”

Entre uma risada e outra, Admilson reconhece que bater um papo com o Fusca é apenas uma maneira de refletir sobre si mesmo, mas não quer abrir mão desse expediente: “É como se fosse um grande amigo”. Por esse motivo, ele praticamente nunca circula com o carro, a não ser para manter um mínimo de atividade e não deixar a “máquina travar”.

“Amo o meu carro”, diz, enfática, Diana Stepevitz, 32 anos, produtora de eventos de São Paulo. Não é uma declaração à toa. Ela convive há nove anos com um Corsa Sedan que tirou 0 km em um consórcio e com ele tem uma relação especial. “É como se fosse uma espécie de templo”, afirma. “Muitas vezes, antes de dormir, entro nele e faço a minha prece. Tenho a sensação de que, se não estiver dentro dele, não consigo rezar.” Diana, que foi batizada no catolicismo e praticou o budismo durante um tempo, não tem hoje uma religião específica, mas se diz “espiritualista”. E explica: “Dentro do carro, eu me sinto protegida e concentrada. Ali, durante a noite, no silêncio da garagem, é como se eu estivesse mesmo em um templo”, compara.

Diana viaja muito, mas quase nunca de carro. Nessas viagens, ela dificilmente repete o ritual diário das rezas. “Se não posso entrar no carro, por estar longe, até me esqueço de rezar. Parece não fazer sentido”, diz, rindo um tanto constrangida por declarar esse hábito, qualificado por ela mesmo como “esquisito”.

A produtora de eventos conta, inclusive, que há pouco tempo, participou de uma pesquisa sobre “felicidade” em que teve de citar um momento inesquecível da sua vida. “O primeiro que me ocorreu foi quando eu dirigi pela primeira vez o Corsa. A sensação de liberdade, de poder ir para onde quiser, conduzindo minha própria vida, meu próprio destino, foi umas das minhas imagens mais marcantes. E eu estava dentro do meu carro. Como posso esquecer isso?”, salienta.

Essa relação com o automóvel — o veículo que dá liberdade, que resolve problemas de deslocamento e que está sempre a postos para servir — tem chamado atenção principalmente nos Estados Unidos. Uma recente pesquisa feita pela Public Policy Institute of California revela que 65% dos motoristas declaram abertamente que têm “profundos sentimentos” pelo seu carro — muitas vezes considerados como verdadeiros membros da família.

O estudo apurou ainda os cinco principais motivos para os motoristas amarem seu carro: admiração pelo poder da máquina, capacidade de se concentrar dentro dele, sensação de cumplicidade, a liberdade que oferece e a disponibilidade em servir sempre.

 

Elas são mais fiéis

Uma pesquisa realizada nos EUA pela empresa Lease Trader, que opera financiamentos para veículos, chegou à conclusão que as mulheres se apaixonam por seus carros por uma período superior ao dos homens. Em média, elas zelam pelos automóveis durante 14 meses depois de adquiri-los — enquanto para os homens esse período não passa de quatro meses. Esse dado foi tão importante para a empresa que, a partir dessa conclusão, os financiamentos para mulheres são operados a taxas mais baixas.

Carro também é gente

A Associated Press Poll, divisão da agência de notícia dedicada a pesquisas de mercado, também promoveu uma enquete entre proprietários de veículos nos Estados Unidos. O resultado: a cada grupo de dez entrevistados, quatro afirmaram que seu carro tem personalidade própria, como se fosse gente, e dois usam nomes, geralmente femininos, para se referir à máquina. Os entrevistados mencionaram três motivos principais para explicar esse apego: a dependência estabelecida com o meio de transporte, o tempo que passam dentro dele e o sentimento de posse que desenvolvem, semelhante ao encontrado nos relacionamentos conjugais.

 

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