Texto: André Schaun
Foto: Saulo Mazzoni

“Eu tenho orgulho de ter feito um Ford T de 1911 funcionar, montei peça por peça, pensando nos mínimos detalhes, sem gambiarra”

William Ford era um típico fazendeiro do século 19 nos EUA, vivendo da produção agrícola de sua fazenda, no interior de Michigan. Pai de seis filhos, o mais velho deles, Henry Ford, era o responsável pela manutenção das máquinas agrícolas e mostrava uma habilidade inacreditável em mecânica desde jovem; aos 15 anos ele era o reparador de relógios mais procurado da região.

Aos 16 anos decidiu sair de sua cidade e apostar sua vida em Detroit. Entre idas e vindas, e trabalhos na área de engenharia, ele criou a Ford Motor Company, em 1908, juntamente com outros 11 investidores.

Seu sonho de realizar produção em série nas máquinas de campo tornou-se realidade com o Ford Modelo T, lançado em 1908 por 850 dólares, mas que só teve a fabricação em série iniciada em 1913, instalando uma nova era de produção no planeta. Seu motor é um quatro cilindros de 2.9 litros, que entrega 20 cv de potência, permitindo atingir a velocidade máxima de 65 km/h.

O pioneirismo na produção em massa, fez o Modelo T representar mais da metade da frota mundial de carros em 1920. Sua produção foi encerrada em 1927, somando 15.007.003 de unidades vendidas em seus 19 anos de produção.

Em outubro deste ano, o Modelo T completou 110 anos de história, e a esmagadora maioria desses mais de 15 milhões se perderam no tempo, sendo uma raridade achá-lo hoje, principalmente no Brasil. Mas um deles está em São Paulo, no bairro de Interlagos, zona sul da cidade.

A história nas mãos!

Quando chego na oficina, Renato Servos ainda não estava lá. Alguns minutos depois, um forte barulho de motor começa a dominar aquela silenciosa rua. Ver um Ford Modelo T em movimento com os próprios olhos é como mergulhar de cabeça na história e visualizar uma cena de 100 anos atrás.

O simpático senhor abre a porta e me convida para dar uma volta. São três pedais, mas esqueça tudo que está familiarizado. O acelerador é acionado através de uma alavanca no volante.

Os pedais funcionam da seguinte forma: o central, controla a ré, o direito controla o freio traseiro – não possui freio dianteiro –, já o pedal esquerdo, seleciona as duas marchas. Quando o pé é pressionado por inteiro, entra a primeira marcha, se colocado no meio do curso, ele entra em ponto morto, e se o motorista tirar totalmente o pé, a segunda marcha entra em ação. É um modo de condução que requer muita prática e habilidade.

Durante todo nosso percurso, o Modelo T foi o centro das atenções, era gente buzinando, acenando e tirando fotos a todo instante. Mas se soubessem a história deste modelo, os suspiros seriam ainda maiores.

Hoje com 77 anos, o engenheiro mecânico aposentado com passagens por Ford, Mercedes- Benz , Volkswagen, 30 anos de Ministério Público, e um dos fundadores da Fatec São Paulo, comprou o chassi, motor, caixa de câmbio e o diferencial do Modelo T, de resto, rodou o mundo para conseguir outras peças – os pneus, por exemplo, vieram do Vietnã –, e outras tantas, como as rodas, ele próprio fez de forma artesanal em sua oficina; todo processo durou por volta de 5 a 6 anos para conseguir fazê-lo rodar.

“Eu tenho orgulho de ter feito um Modelo T de 1911 funcionar, montei peça por peça, pensando nos mínimos detalhes, sem gambiarra alguma. É uma manutenção sem fi m, mas é uma luta interna minha”, comenta Servos, e conclui dizendo que não colocou amortecedores para manter a originalidade, mesmo sendo fabricante de amortecedores para carros especiais.

Com olhar clínico e perfeccionista em cada detalhe, alguns dos carros de Renato Servos podem ser vistos de perto no Laguinho de Interlagos, juntamente com outros modelos clássicos de outros colecionadores, todo último domingo de cada mês.

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