Dizer que os motores turbo estão se popularizando não é novidade. E se antes isso era restrito a veículos maiores (e mais caros), a chegada do Volkswagen up! TSI marcou o início do uso da superalimentação como alternativa para alcançar as metas de eficiência energética do programa Inovar-Auto, além de permitir obter mais potência de motores menores. De quebra, a adoção do turbo atualmente vem acompanhada de avanços tecnológicos notáveis nos motores.

Mesmo assim, há quem prefira investir em soluções aparentemente mais convencionais para atingir o mesmo objetivo. E é justamente esse confronto de receitas que apresentamos neste comparativo entre Hyundai HB20S 1.0 Turbo e Toyota Etios Sedã 1.5.

Começando pelo Hyundai, a fabricante garantiu o pioneirismo no uso do turbo entre os sedãs pequenos com o lançamento da linha 2016 do HB20S equipada com o já conhecido motor Kappa 1.0 superalimentado.

Hyundai HB20S 1.0 Turbo na versão Comfort Style

O propulsor é o mesmo das versões “convencionais” do HB20S, com bloco e cabeçote de alumínio e comando de válvulas duplo e variável na admissão. A partir daí, todas as novidades foram adaptadas para a adoção do turbo.
 
O turbocompressor é de geometria fixa e feito de liga de níquel. Sua rotação máxima é de 230.000 rpm e a pressão de trabalho é de 0,9 bar. O conjunto conta com válvulas de controle de pressão e de alívio do compressor eletrônicas, o que otimiza o controle dos gases e do funcionamento do turbo de maneira mais “inteligente” do que com sistemas mecânicos.
    
O sistema de arrefecimento do ar comprimido é feito por um trocador de calor (intercooler) do tipo ar-ar, mais comum e que depende da velocidade do carro para melhorar sua eficiência. Ainda assim, a Hyundai  garante que o ar (que pode chegar a 100 °C ao ser comprimido) resfria-se a 30 ºC ao passar no trocador de calor.

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Galeria de fotos do Etios 1.5 na carroceria hatch

Outra solução mais simples escolhida pela Hyundai foi o sistema de injeção de combustível no coletor, em vez da direta, como usado por alguns rivais também superalimentados. Em tese, a injeção direta contribuiria para reduzir ainda mais o consumo e aumentar a eficiência do motor. Em compensação, seria bem mais caro.

Independentemente disso, os avanços incorporados permitem ao motor Kappa 1.0 turbo produzir 31% mais potência e 47% mais torque em relação ao convencional. Isso também obrigou a Hyundai a adotar coxins maiores e mais resistentes para suportar os esforços adicionais. 

Identificação do motor turbo é um emblema na traseira do sedã

A Toyota preferiu seguir outro caminho e não modificou drasticamente a família de motores usada em sua linha de compactos Etios, batizada de NR. O investimento maior, de R$ 580 milhões, foi usado para construir a fábrica onde os motores passaram a ser produzidos, em Porto Feliz, SP. Mas, mesmo adotando alterações pontuais, a fabricante conseguiu melhorias importantes.

Algumas dessas mudanças você já viu em nossa edição anterior, no teste do Etios hatch 1.5. Trata-se do aprimoramento na atuação das válvulas, passou a alavancas roletadas com compensação hidráulica da folga, e variador de fase também no escapamento, mantendo o acionamento dos comandos por corrente. A taxa de compressão do motor subiu de 12:1 para 13:1 e, ao contrário do HB20S turbo, o Etios dispensa o uso de gasolina nas partidas a frio, o que também foi aprimorado. Em comum com o motor do rival sul-coreano, o bloco e o cabeçote do 1.5 nacional são feitos de alumínio.

CONFORTO EQUILIBRADO
Embora as estratégias de Hyundai e Toyota sejam distintas, em nossa pista de testes o desempenho dos dois carros não ficou distante. Na verdade, os números podem até surpreender aqueles que imaginavam que o carro com motor turbo superaria o de aspiração natural facilmente. O que se viu aqui foi uma disputa bastante equilibrada. 

Kappa 1.0 turbo não é expoente em tecnologia, mas garante eficiência

Na prova de aceleração de 0 a 100 km/h, por exemplo, o Toyota Etios se saiu ligeiramente mais rápido do que o HB20S, registrando 10s11 contra 10s69. E a vantagem do japonês aumentou na hora de ir até 120 km/h: 13s99 contra 15s52. 

A situação se inverteu na hora das retomadas. Nesse caso, a vantagem da superalimentação se mostrou insuperável e chegou a superar quatro segundos em favor do Hyundai no teste para retomar de 60 km/h a 120 km/h em quarta marcha.

O embate permaneceu parelho na hora de parar. Enquanto o HB20S precisou de menos espaço para frear completamente vindo a 100 km/h (40,19 m contra 40,30 m), a diferença entre a pior e a melhor frenagens do Etios no teste de fading com o veículo carregado foi 1,06 m menor que a registrada pelo concorrente.

Quanto ao consumo de combustível – a principal razão para as atualizações dos motores 1.0 Kappa e 1.5 NR –, a aposta da Hyundai no turbocompressor deixou o HB20S 8% mais econômico (com etanol) do que o Etios. Na cidade, o sedã com motor turbo registrou 8,6 km/l frente aos 8,2 km/l do concorrente. Na estrada, a vantagem do Hyundai foi ainda maior: 12,3 contra 11 km/l. Considerando a capacidade do tanque de combustível dos dois modelos, o Hyundai conta com autonomia de 510 km, enquanto o Toyota pode rodar até 423 km sem reabastecer.

Ou seja, em termos de eficiência na pista, a estratégia da Hyundai comprovou sua eficácia ao atribuir ao HB20S um nível de desempenho muito próximo ao do Etios, sem abrir mão de sua proposta de ser econômico. O Toyota, por outro lado, surpreende por possuir um motor significativamente maior que o do rival, sem que isso prejudique o bolso do consumidor na hora de abastecer.

Toyota Etios Sedã 1.5 na versão de topo, a XLS

COMPORTAMENTOS DISTINTOS
Mas se no desempenho os dois modelos conseguem se equiparar, a coisa muda de figura na hora em que se analisa a maneira como cada modelo o entrega ao condutor. Como é característica dos modernos motores turbo, a entrega do pico de torque do HB20S ocorre já nas faixas mais baixas de rotação. O torque máximo de 15 kgfm está disponível já a partir de 1.550 rpm (o pico de 105 cv é atingido a 6.000 rpm). 

Apesar disso, ainda é possível perceber uma pequena demora na resposta do motor (turbolag) ao conduzir o Hyundai, suficiente para tornar o comportamento do três-volumes da Hyundai menos prazeroso que o do Toyota, ainda mais para quem busca conforto. É questão de se acostumar, mas, mesmo assim, o Etios mostrou-se bem mais fácil (e cômodo) de ser conduzido – principalmente no trânsito.

O sedã da marca japonesa entrega o torque de 14,7 kgfm e os 107 cv (cujos picos ocorrem a 4.000 rpm e 5.600 rpm, respectivamente) de maneira mais linear. Assim, o Etios se mostra bem mais agradável de ser dirigido, ainda mais nas situações de anda e para dos congestionamentos.

Além da entrega do torque mais linear e da embreagem mais leve, as relações de marchas são outros ingredientes nesta análise. As duas primeiras marchas do Etios são consideravelmente mais longas do que as do HB20S, mas, na prática, o sedã com motor 1.5 exibiu elasticidade suficiente para embalar, mesmo em baixas rotações, como o seu concorrente. 

Versão mais completa do Etios parte de R$ 56.950

O CONFORTO FAZ A DIFERENÇA
Outro aspecto no qual o Etios merece destaque é o conforto que a sua cabine proporciona. Em nossa atribuição de notas, o conjunto carroceria, que inclui quesitos como medidas internas, sensação de espaço e porta-malas, foi o responsável pela maior diferença registrada entre esses dois sedãs compactos de origem oriental.

O interior do Etios, por exemplo, é 32 cm maior que o do HB20S. E a sensação de espaço transmite a impressão de que o aproveitamento da cabine do Toyota é ainda melhor, já que, mesmo sendo um compacto, o modelo consegue abrigar até três adultos no banco de trás com conforto satisfatório.

O porta-malas também proporciona vantagem interessante ao Etios. Com capacidade para abrigar 562 litros de bagagem, ele oferece espaço superior em mais de 100 litros na comparação com o três-volumes rival. 

A resposta do HB20S surge ao se analisar a sua lista de equipamentos de série. Embora o quadro de instrumentos digital e a direção com assistência elétrica sejam itens exclusivos do Etios, o Hyundai oferece volante com ajustes de altura e distância, além de banco do motorista com regulagem de altura, o que facilita bastante encontrar a posição ideal de dirigir. Além disso, o Hyundai traz travas com acionamento elétrico automático acima de 20 km/h, algo que o seu rival fica devendo, mesmo em sua configuranção mais cara. De resto, ambos contam com ar-condicionado, retrovisores externos com ajuste elétrico, faróis auxiliares, sistema de áudio com entrada USB e conexão Bluetooth, além de sistema Isofix para fixação de cadeiras para transporte de crianças no banco de trás.

Motor aspirado do Etios ganhou mais potência e torque na linha 2017

XEQUE-MATE NA MANUTENÇÃO
Com relação aos custos de manutenção dos dois sedãs, o Hyundai HB20S consegue ser mais vantajoso que o Toyota Etios Sedã em três dos cinco quesitos que analisamos em nossa tabela de pontuação. Começando pela garantia, já que a marca sul-coreana aposta há algum tempo em oferecer uma condição mais favorável que a de suas concorrentes: são cinco anos de garantia para o HB20S contra três oferecidos pela Toyota aos donos de Etios. 

Por ser mais barato, o HB20S também leva vantagem na hora de pagar o IPVA. Mas é na cotação do seguro, surpreendentemente, que o modelo da Hyundai exibe maior vantagem sobre o rival. Ainda que os carros com motor turbo sejam prejudicados atualmente pelo estigma de oferecerem “risco maior” às seguradoras, a cotação do Hyundai é mais barata do que a do Etios: R$ 2.165 ante R$ 2.804. 

O jogo vira em favor do Toyota quando o assunto é manutenção. Em nossa cesta básica de peças, o Etios é mais atraente neste quesito. O jogo de velas do HB20S turbo, por exemplo custa R$ 276. O preço alto é justificado pelo tipo de material que a peça é feita (irídio) e que permite maior durabilidade (neste caso, a troca deve ser feita a cada 70.000 km). As velas comuns do Etios saem por R$ 112. As pastilhas de freio dianteiras do Hyundai também prejudicam o sedã: o par custa R$ 427.  

No final das contas, ainda que o Hyundai HB20S Turbo exiba muitas qualidades, o Toyota Etios Sedã levou a melhor nesta disputa graças, principalmente, à sua polivalência.

Teste completo na revista CARRO #273

VEREDICTO
Os carros que disputam o segmento dos sedãs pequenos devem atender a uma série de exigências de seu público. Deles, esperam-se praticidade, espaço e funcionalidade para acomodar a família (além de bagagem), baixo consumo de combustível, bom desempenho em viagens e custo de manutenção acessível. Entre os dois modelos reunidos aqui, o Etios Sedã é o que atende a essas necessidades de maneira mais eficiente, oferecendo um conjunto mais harmonioso, sobretudo em termos de desempenho e conforto. O HB20S 1.0 Turbo não deve ser descartado, principalmente pelo visual. Mas, ao escolhê-lo, o consumidor terá de abrir mão de algumas vantagens, como o espaço interno maior e os custos de manutenção mais acessíveis do Toyota. 

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