Agora despido do caráter fora de estrada, Ford EcoSport enfrenta o Hyundai Creta, líder entre os SUVs compactos. Quem vence este duelo?

Texto: Gustavo de Sá

Fotos: Renan Senra

No início dos anos 2000, as fabricantes apostavam em tração 4×4 e estepe fixado à tampa traseira para imprimir imagem de valentia aos poucos SUVs compactos oferecidos nos Brasil à época. Foi assim com os Mitsubishi Pajero iO e TR4 e o pequenino Daihatsu Terios. O Ford EcoSport estreou em 2003 inicialmente com tração dianteira, mas teve como marca registrada a roda sobressalente externa até o início deste ano.

Agora, a versão Titanium vem sem a quinta roda em busca de um perfil de cliente “mais urbano”, nas palavras da própria marca. Desta forma, a mudança busca atrair quem acha que o estepe exposto é coisa do passado. Com preço ao redor dos R$ 105 mil, alinhamos para este comparativo a novidade da Ford e o Hyundai Creta, o SUV compacto mais vendido no Brasil em 2018. Qual deles convence no conjunto da obra?

O Creta foi apresentado no Salão de 2016 e estreou no início do ano seguinte com visual exclusivo para o nosso mercado na comparação com o equivalente asiático (conhecido como ix25 por lá e revelado dois anos antes).

Ele utiliza a mesma plataforma que dá origem aos médios Elantra e i30. Já o EcoSport de segunda geração apareceu por aqui em 2012 e trouxe equipamentos até então raros na categoria, como seis airbags e controles de estabilidade e tração – itens não por acaso compartilhados com o Fiesta, hatch do qual deriva.

Ainda que com aumento de dimensões em relação ao original, o SUV da Ford ficou acanhado em tamanho após a chegada de competidores como Honda HR-V, Nissan Kicks e o próprio Creta. A primeira reestilização chegou em 2017, com mudanças estéticas concentradas na dianteira e no interior. A linha 2020 do EcoSport Titanium evidencia o porte mais acanhado graças à ausência do estepe na tampa traseira, que foi substituído por pneus do tipo run flat (que podem rodar mesmo vazios por até 80 quilômetros, a 80 km/h) e kit de reparos de emergência.

Com isso, o comprimento total diminuiu de 4.269 mm para 4.096 mm, enquanto o Creta tem 4.270 mm da extremidade dianteira à traseira da carroceria. O Hyundai também supera o rival em largura (1.780 mm x 1.765 mm) e na distância entre eixos (2.590 x 2.519), mas perde em altura (1.635 x 1.693).

A novidade da linha 2020 do Ford custa R$ 103.890. Para equipará-lo em preço, elegemos o Creta Prestige (R$ 104.990) para este comparativo, embora a versão utilizada no ensaio fotográfico seja um exemplar do acabamento intermediário Sport (R$ 98.990).

EcoSport Titanium e Creta Prestige satisfazem na análise do conteúdo de série. Ambos vêm com controles de estabilidade e tração, assistente de saída em rampas, múltiplos airbags (sete no EcoSport e seis no Hyundai), bancos em couro, ar-condicionado automático com ajuste digital, chave presencial, botão de partida, controle de cruzeiro, luzes de rodagem diurna em LED, sensores de estacionamento traseiros, central multimídia com tela tátil e câmera de ré.

A lista de itens em comum inclui ainda sistema de monitoramento da pressão dos pneus, faróis de neblina com função de iluminação de conversão estática, sensor de chuva, acendimento automático dos faróis, rodas de 17 polegadas e engate Isofix.

Somente o EcoSport traz sistema de monitoramento de pontos cegos com alerta de tráfego cruzado, teto solar elétrico, retrovisor eletrocrômico, 2 entradas USB (ante uma no rival), sistema de som com 9 alto-falantes (no Creta, são seis) e assistente de emergência integrado à central SYNC 3, que pode acionar automaticamente o Samu em caso de colisão com disparo dos airbags.

Exclusivos do Hyundai são o sistema de parada e partida automática do motor em breves paradas (stop-start), saídas de ar para o banco traseiro, banco do motorista com ventilação, retrovisores externos com rebatimento elétrico e TV digital integrada à multimídia.

A cabine do EcoSport foi um dos pontos que mais recebeu atenção da Ford na reestilização de 2017, quando o acabamento subiu de nível. A seção superior do painel possui material macio ao toque, assim como os botões de comando do ar-condicionado e da central multimídia trazem superfície levemente emborrachada. As portas, entretanto, não acompanharam a evolução e são feitas em material que destoa do restante.

No Creta, os plásticos do painel são mais simples, mas há bom arremate no encaixe das peças. Ao contrário do modelo das fotos (Sport), no Prestige a faixa central do painel e os puxadores das portas replicam a cor marrom dos bancos em couro. O revestimento do teto, porém, poderia ser de melhor qualidade.

Boas sacadas no interior do EcoSport são o porta-luvas climatizado, o assoalho móvel no porta-malas (que mantém o piso plano ao rebater os bancos) e a possibilidade de limitar a intensidade da ventilação do ar-condicionado mesmo quando no modo automático.

Entretanto, alguns detalhes evidenciam a idade mais avançada do projeto, como as colunas dianteiras espessas e os limpadores de para-brisa que ficam muito aparentes pelo lado de dentro mesmo quando desligados. No Creta, uma curiosidade chamou a atenção: os espelhos de cortesia nos para-sóis são os maiores que eu já me recordo de ter visto em um automóvel, com comprimento útil de 6,5 polegadas – para efeito de comparação, é a mesma medida da tela de um iPhone XS Max, o maior celular já produzido pela Apple.

O espaço interno é melhor no Hyundai, especialmente no banco traseiro, com mais espaços para pernas, joelhos e ombros dos passageiros. É dele também a maior capacidade do porta-malas, com 431 litros – no EcoSport, cabem 356 l. Apesar da ausência de estepe, a abertura da tampa traseira do Ford continua lateral. Se por um lado exige mais espaço para realizar esta manobra, por outro facilita o manuseio por parte de pessoas com deficiência que utilizam cadeira de rodas.

Concepções diferentes

Se a disputa começa equilibrada em relação a pacote de equipamentos, em desempenho o Creta abre vantagem. Enquanto a linha 2019 do EcoSport trazia motor 2.0 de 176 cv e 22,5 kgfm na configuração Titanium, o modelo 2020 traz somente o 1.5 de 137 cv e 16,2 kgfm no mesmo acabamento. Enquanto isso, sob o capô do Creta está um 2.0 de 166 cv e 20,5 kgfm, que confere a ele melhor relação peso-potência (ainda que tenha massa em ordem de marcha 89 kg superior).

Motor Ford EcoSport

Na pista, o Creta Prestige demonstrou disposição, com 9s7 na aceleração de zero a 100 km/h, ante 12s6 do EcoSport Titanium. O Ford ficou 4s5 para trás na retomada de 60 a 120 km/h, cumprida pelo Hyundai em 9s3. Na medição de zero a 1.000 metros, o Creta atingiu a marca de 168 km/h, ante 148 km/h alcançados pelo EcoSport.

Nas provas de frenagem, a vantagem do Creta foi mais discreta, com 39,2 metros percorridos ao estancar completamente vindo a 100 km/h – o Ford parou apenas 0,4 m depois. Na prova que avalia a resistência ao superaquecimento dos freios após 10 frenagens consecutivas, o modelo da marca de origem coreana garantiu o menor intervalo entre a melhor e a pior marca. Vale lembrar que ambos utilizam freios a disco somente no eixo dianteiro.

Motor Hyundai Creta

Ao volante, os dois utilitários esportivos têm comportamentos que agradam. O EcoSport em nada lembra a primeira geração, que apresentava rolagem excessiva da carroceria. O novo modelo possui acerto de suspensão que satisfaz no uso em vias não pavimentadas e garante o bom controle em curvas. O Ford possui ainda sistema anti-capotagem, que monitora a rolagem da carroceria 100 vezes por segundo e atua nos freios caso haja necessidade.

O Creta também satisfaz no acerto dinâmico, porém, traz suspensão ligeiramente mais desconfortável em pisos ruins. O acelerador poderia proporcionar abertura mais progressiva da borboleta – a impressão é de que a calibração remete ao modo “Sport” de outros modelos, com entrega mais instantânea de potência.

Este ajuste mais arisco do acelerador, combinado ao motor de maior cilindrada, fez com que o Creta registrasse consumo de etanol mais elevado do que o concorrente, com 6,2 km/l na cidade e 7,4 km/l na estrada. Nos mesmos ambientes, o EcoSport garantiu médias de 7,4 km/l e 9,1 km/l, respectivamente.

Na análise de gastos após a compra, o Creta compensa o maior preço de aquisição com o menor custo de revisões. Os três primeiros serviços do utilitário produzido em Piracicaba (SP) têm preço sugerido de R$ 1.442, enquanto a manutenção programada do Ford custa R$ 1.837 no mesmo período.

Ambos têm paradas previstas para cada 10 mil quilômetros ou 12 meses, o que ocorrer primeiro. O Hyundai leva vantagem pelo maior período de garantia de fábrica, de cinco anos, ante três no Ford. Nas cotações de seguro, houve praticamente empate técnico, com R$ 4.675 pela apólice do EcoSport e R$ 4.680 pela do Creta.

Nas somas das análises técnica e de mercado, o Creta sai vencedor, com 278 pontos, ante 263 do EcoSport. O Ford vai bem em itens de série e consumo de combustível, mas deixa a desejar pelo projeto mais antigo, que reflete em pontos como visibilidade e espaço para passageiros e bagagens. O Hyundai, por sua vez, entrega o conjunto mais equilibrado deste duelo, com melhor desempenho em acelerações e frenagens, dimensões internas e boa relação custo-benefício.

Veja a tabela de teste com os números de pista do comparativo Hyundai Creta Prestige x Ford EcoSport Titanium:

 

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