Intimidador, Trump assombra o Salão de Detroit

CLAUDIO DE SOUZA FLORENCIO
Da Motorpress, em Detroit (EUA)
06/01/2017 23:42

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, que assume a Casa Branca no próximo dia 20, será a grande "estrela" do Salão de Detroit, que abre à imprensa no domingo (8). As aspas devem-se à natureza do protagonismo do republicano durante o evento que abre a temporada automotiva global: por meio de uma rede social, Trump criticou e, no limite, ameaçou três das maiores fabricantes de automóveis do mundo -- duas delas americanas.

A primeira vítima foi a Ford. As críticas de Trump à empresa remontam à campanha eleitoral, quando o então candidato republicano tuitou críticas a supostos planos da empresa de abrir uma nova fábrica no México e transferir "empregos americanos" para lá. Em outubro, o herdeiro e chairman da empresa, William Ford Jr., procurou o presidenciável para uma conversa sobre os ataques. O assunto perdeu temperatura depois do encontro -- até que, em meados de novembro, já eleito, Trump comemorou (também num tuíte) a decisão da Ford de não abrir uma linha de produção da marca premium Lincoln no México, e sim no estado de Kentucky.

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Na terça-feira (3), o CEO da Ford, Mark Fields, anunciou que um investimento de cerca de US$ 1,6 bilhão que estava reservado para uma nova fábrica no país vizinho fora cancelado, e que, em vez disso, US$ 700 milhões seria injetados na unidade (já existente) de Flat Rock, cidade vizinha a Detroit. Segundo Fields, o montante será destinado à pesquisa e produção de carros autônomos e elétricos, gerando cerca de 700 empregos locais.

O CEO negou que a Ford tenha chegado a qualquer acordo com Trump (mesmo após o episódio da Lincoln), e lembrou que a produção da nova geração do Focus (que vende pouco nos EUA e proporciona margem de lucro pequena) será mantida em Hermosillo, no México.  

CRUZE DE ONDE?
A segunda montadora a ser incomodada foi a General Motors. Também no Twitter, o presidente eleito fez um mistureba de informações corretas e erradas para acusar a montadora de fabricar no México o Chevrolet Cruze vendido no mercado americano. Depois, a ameaçou com uma taxa de importação de 35%.

Na verdade, o Cruze oferecido aos americanos em grande volume é o de carroceria sedã, produzido em Lordstown, no estado de Ohio. Dirigindo a caminho de Detroit nesta sexta-feira (6), a reportagem de CARRO ONLINE passou em frente à fábrica, e notou um enorme outdoor que proclama Lordstown como "a casa do Cruze".

O carro fabricado no México é o Cruze hatch, vendido no Brasil como Sport6 e que simplesmente não existia nos EUA até a chegada da segunda e atual geração do modelo. A GM admite trazer aos EUA um número limitado de Cruze hatch, mas as vendas são residuais -- até porque o americano geralmente não dá bola para dois-volumes. Os números de 2016, segundo a companhia, são os seguintes: quase 186 mil Cruze sedã fabricados e vendidos nos EUA; cerca de 4.500 Cruze hatch fabricados no México e vendidos nos EUA.

Fábrica da GM em Lordstown, Ohio: a "casa do Cruze"
COROLLA É ALVO
Nesta quinta-feira (7), foi a vez de a Toyota ser alvejada por um tuíte de Trump. O presidente eleito afirmou que a montadora japonesa pretende abrir uma nova fábrica no México, na região da Baja Calofórnia, para fabricar o Corolla, e mais uma vez mencionou a eventual criação de uma taxa de 35% sobre carros feitos no país vizinho e vendidos nos EUA.

Na verdade, a futura nova fábrica da Toyota no México será em Guanajuato; a unidade em Baja Califórnia já existe e fabrica a picape Tacoma, exportada em volume relativamente baixo (menos de 80 mil por ano) aos EUA.

O Corolla americano é fabricado no Mississipi, e a futura unidade de Guanajuato servirá apenas para aumentar a capacidade de produção do modelo, sem alterar o perfil e a quantidade de empregos na unidade dos EUA. A agressão de Trump provocou uma reação até do governo do Japão, que exaltou a Toyota e lembrou que ela está implantada nos EUA (onde emprega 136 mil pessoas) há mais de 60 anos.

Reprodução do tuíte em que Trump ameaça a Toyota
ACORDO DE 22 ANOS
Vale lembrar que todas essas montadoras dividem sua produção pelos países da América do Norte (inclusive o Canadá) devido ao NAFTA, acordo tarifário que eliminou taxas de importação internas ao subcontinente (algo semelhante ao que existe entre os países do Mercosul). A alocação de fábricas é decisão estratégica, que pode ser planejada ao longo de anos, e que depende do fator "previsibilidade".

Nesse sentido, o avanço de Donald Trump sobre o livre comércio que vige na região desde 1994 -- e que afeta também o Brasil, já que o México é parceiro comercial do Mercosul -- é um fator desestabilizante que deve tornar tensas e carregadas de tons políticos as apresentações dos principais executivos das três montadoras citadas aqui em Detroit. E, claro, Nissan, Honda e Chrysler (hoje parte da FCA) podem estar na mira do presidente eleito também.

Viagem a convite da General Motors