Dieta e 400 cv: a receita do Volvo S60 Polestar

CLAUS MÜHLBERGER
Da Motorpress, com WILSON TOUME
09/02/2017 15:02

Do conhecido e adorável céu límpido e azul não há nenhum traço. Pelo contrário, em outubro, a região sul da Suécia já exibe o cenário cinzento do inverno que se aproxima. Para piorar, nuvens pesadas derramam uma chuva incessante. 

A pista molhada não estava exatamente convidativa

O autódromo de Mantorp Park, localizado entre Gotemburgo e Estocolmo exibe um charmoso estilo do fim dos anos 1970, com longos trechos de terra e cascalho nas áreas de escape, em vez do asfalto moderno. Os guard-rails estão bem espalhados pelo circuito e a infraestrutura geral parece adequada para prevenir consequências trágicas no caso de algum acidente. 

Mas chega de pensamentos sombrios. Em um dos boxes, o simpático piloto Thed Björk me aguarda com seu Volvo S60, com o qual a equipe sueca conquistou a sua primeira vitória no WTCC (o Campeonato Mundial de Carros de Turismo). O azul radiante do carro de corrida contrasta com o céu carrancudo, me animando na hora e levantando o astral dos presentes.

A bordo do S60 Polestar tudo está à mão

Só que, logo em seguida, a preocupação toma conta da minha mente: 400 cv, tração dianteira e pista encharcada. Vamos assim mesmo? E teremos condições de andar bem? A resposta é a que nós já imaginávamos: "Sim, mas..."

PEQUENO, MAS POTENTE
Ao se observar a ficha técnica do S60 Polestar, a primeira reação pode ser de decepção, principalmente por parte de quem não acompanha as competições automobilísticas. Afinal, um aparentemente simples 4-cilindros de 1.6 litro não parece nem um pouco impressionante. 

Ficha técnica do S60 de competição traz motor 1.6 turbo de 400 cv

Mas basta acioná-lo para a coisa mudar de figura. O ronco não parece nada com o de um motor pequeno, e causa a primeira surpresa. O regulamento do Mundial permite até 2,5 bar de pressão no sistema de alimentação, suficiente para gerar excelentes 47,9 mkgf. E pensar que, até pouco tempo atrás, os pilotos eram obrigados a adotar um estilo de condução mais arriscado para compensar a pouca potência dos carros – que tinham apenas 280 cv à disposição...

Falando em passado, é bom lembrar que esse S60 foi desenvolvido pela Polestar, empresa responsável pelos carros esportivos da marca sueca desde 1996, e que hoje faz parte do grupo. A parceria surgiu com o famoso 850 sedã. Desde então, fabricante e preparadora só intensificaram  o relacionamento, que culminou com o lançamento, em 2013, dos modelos S60 e V60 Polestar. Hoje, a empresa possui as divisões de Otimização de Desempenho, Componentes e Desenvolvimento de Veículos, do qual a equipe Cyan Racing (representante oficial da marca no WTCC) faz parte.

Aerofólio é gigante, feito de plástico reforçado com fibra de carbono

Voltemos ao carro: a primeira marcha é muito mais longa do que eu imaginava, enquanto o acelerador possui uma sensibilidade próxima da ideal, nem tão pesada (como outros carros de competição que já experimentei) nem tão suave quanto a de um carro de passeio. A cada pisada um pouco mais vigorosa, o motor responde instantaneamente, como se não houvesse nenhuma caixa de engrenagens acoplada a ele.

Os pneus derrapam com facilidade, também por mérito do engenhoso sistema anti-lag da Volvo, que anula o atraso provocado pela inércia do turbo de grandes dimensões usado no motor 1.6 através do gerenciamento dos gases e do tempo de ignição do motor. Tudo isso pode ser ajustado também pelo piloto, por meio de um seletor giratório no volante. LEDs brilham no pequeno monitor à frente do piloto, indicando o melhor momento para as trocas de marcha, como nos carros de Fórmula 1, mas, mesmo seguindo as indicações, os pneus Yokohama giram em falso diversas vezes no piso molhado, principalmente nas saídas de curva.

Poderosos freios não possuem ABS: é preciso saber dosá-los

Vou me adaptando ao carro e ganho confiança à medida que aumento a velocidade. A longa reta do Mantorp Park é percorrida muito velozmente e uma rápida sequência de curvas esquerda-direita exige manobras que me permitem constatar o quão ágil este Volvo é. Por fim, vem uma curva de 90° à direita e outra reta.

Nesse momento, surgem em minha mente cenas do filme Christine, um clássico do terror baseado em um romance de Stephen King, no qual um Plymouth Fury “possuído” por um espírito maligno enciumado faz de tudo para acabar com a vida do seu proprietário. Não, o S60 Polestar não me maltrata, mas imagino se ele não poderia “ganhar vida” de um momento para outro. 

Diversas partes da carroceria são de fibra de carbono

LEDS ASSISTENTES
Detalhe importante: o Volvo S60 Polestar não conta com sistemas eletrônicos de auxílio ao piloto. "Freios com ABS são proibidos pelo regulamento da competição, assim como controles eletrônicos de estabilidade e de tração", explica Thed Björk. Mas o piloto não fica totalmente “órfão” da eletrônica. As duas sequências de luzes dispostas verticalmente no pequeno quadro de instrumentos indicam, por exemplo, se uma das rodas está bloqueando durante as frenagens. Não é muito, mas já serve como auxílio. "Se perceber alguma coisa muito diferente, pare e desligue o motor", recomendou Björk. Concordei, balançando a cabeça enquanto pensava: "Ele imaginou mesmo que eu tentaria fazer algo diferente se o carro apresentar algum problema?"

Nas curvas mais rápidas, o S60 Polestar me recorda que pilotar um carro tão leve e potente com tração dianteira não é a tarefa mais fácil do mundo. "No uso diário e para motoristas comuns, a tração dianteira é mais segura. Mas em um carro de competição, ela pode ser complicada", explica o piloto da equipe sueca. 

Lado a lado as duas versões Polestar do S60: a civil e a das pistas

De volta aos boxes, o pessoal da equipe Cyan me aguarda, dando a impressão de que estão surpresos por me verem retornar com o carro inteiro e sem auxílio de um roboque.
“Pilotar um carro como esse faz qualquer um se sentir no fio da navalha”, diz Björk. Para relaxar, o piloto me convida a acompanhá-lo em algumas voltas no autódromo a bordo do S60 Polestar de rua. “Apenas para nos divertir, o que acha?” Nem preciso dizer qual foi a minha resposta. 

O piloto acelera fundo e os 367 cv do motor 2.0 turbo responde prontamente. Seguimos pelo circuito, enquanto Björk aproveita para realizar alguns drifts (derrapagens controladas), após desligar os assistentes eletrônicos. “Parece brincadeira de criança”, diverte-se. Após três voltas, ele para no box ao lado do S60 de corrida. Os carros são parecidos? Nada mais incorreto!

Volvo S60 Polestar para competições é adrenalina pura