Da neve ao deserto

Motorpress
Da Redação, em São Paulo (SP)
28/08/2013 05:00
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Aston Martin V12 Vantage Roadster
Lamborghini Aventador LP 700-4
Lamborghini Aventador LP 700-4
Lamborghini Aventador LP 700-4
Lamborghini Aventador LP 700-4
Lamborghini Aventador LP 700-4
Lamborghini Aventador LP 700-4
Lamborghini Aventador LP 700-4
Lamborghini Aventador LP 700-4
Lamborghini Aventador LP 700-4

Com o Lamborghini Aventador LP 700-4 no deserto

Apesar de ser noite, ainda está claro, e lá está ele, no meio do deserto, preenchendo o cenário com a sua figura imponente: preto fosco, bruto, musculoso. Sem explicação aparente, sem indicação de quem o trouxe aqui. Um Aventador LP 700-4 diante das dunas é uma imagem tão absurdamente irreal que mais parece uma miragem. O Lamborghini, porém, é real, imponente e forte.

Mas ele não está aqui à toa. Como se fosse um “Tom Cruise automobilístico”, capaz de realizar missões impossíveis, ele é capaz de enfrentar as areias, graças ao seu sistema de tração integral.

Mas é claro que um superesportivo perto das dunas parece tão deslocado quanto um SUV em uma pista de corrida. Mas como os modernos utilitários do tipo Porsche Cayenne estão aí para nos desmentir, vamos em frente.

A magia está na loucura e aparente impossibilidade do projeto. Justificadamente, os desertos são considerados os lugares mais inóspitos da Terra. Assim, não se pode esperar encontrar estradas asfaltadas, mas sim caminhos atravessados por camelos e veículos off-road.

Para garantir pelo menos uma tração mais adequada, escolhemos o Lamborghini de tração integral. E também por ele possuir o mais selvagem e brutal motor V12 da nossa época. Para se ter ideia, em aceleração plena ele libera incríveis 700 cv e 70,4 mkgf nas quatro rodas.

Mas nós só conseguimos realizar a loucura graças à família Al Jaziri, que detém a marca em Dubai, e nos disponibilizou um modelo de demonstração. O LP 700-4 com quase 7.000 km rodados certamente já havia tido contato com um ou outro grão de areia e, por certo, também já viu o deserto. Porém, apenas de uma das estradas que leva a um dos emirados vizinhos, como Abu Dhabi ou Omã.

Nosso primeiro obstáculo foi o trânsito da cidade. Durante o dia não apenas a nobreza do dinheiro domina o tráfego, mas também os carros “comuns” da classe média. Só após o anoitecer é que tem início a parada dos superesportivos. Como somente os acessos para as rodovias e as rotatórias permitem que se acelere em curvas, isso explica porque os esportivos em Dubai sejam vistos apenas como símbolo de ostentação ou como um tipo de “dragster” das estradas.

As dunas começam a poucos quilômetros de Dubai City. Suas formas onduladas são extremamente uniformes. Logo surge a vontade de desviar e entrar nessa paisagem surreal. Basta seguir a trilha de um SUV. Mas o perigo aqui é a mudança repentina do piso, como comprova uma exploração a pé: quase afundamos na base da duna, por pouco não ficamos presos ao escalar e seguimos em direção ao cume como se estivéssemos em um pântano – embora a areia parecesse sempre igual. Quem não consegue (ou não sabe) ler os sinais sutis deve ficar longe ou procurar um passeio guiado.

Inicialmente, seguimos a primeira dica e apenas cruzamos estradas cobertas de areia. Um olhar pelo retrovisor indica: já na velocidade máxima permitida, o Aventador levanta bastante areia e atrai um comboio impressionante.

Um carro esportivo em uma estrada atravessando a solidão é uma cena surreal. Afinal, estrelas do mundo automobilístico surgem apenas nas cidades ou em autódromos. Agora, no entanto, o Aventador parece uma criatura sinistra que voa pelo deserto. Apenas camelos dão sinal de vida, eles se espalham na estrada e, relutantes, saem da frente. A coisa toda tem algo da atmosfera apocalíptica do tipo Mad Max, o que também se deve às formas do superesportivo, que poderia muito bem ser um óvni voando baixo.

O ambiente absurdo incita a vontade de explorar, e nós tomamos um caminho que sai do asfalto em direção às dunas. Nele, foram deixadas marcas de pneus que seguimos cuidadosamente. Por meio de um botão, elevamos a frente do carro em 40 mm graças a um sistema hidráulico que parece ter sido criado para a nossa necessidade, evitando que o Aventador machuque o “nariz”.

Agora, a nossa percepção está voltada para as reações do carro, e não mais tanto à altura em relação ao solo, como é comum em carros esportivos dirigidos em alta velocidade. O interesse é essencial para perceber a atuação da tração. A única indicação de afundamento iminente é dada pela perda de controle, o que pode ser sentida pela direção, que se torna cada vez mais leve.

Em baixa velocidade, o Aventador exibe a teimosia de um dromedário. A resposta ao acelerador é um pouco irregular, o que pode ser corrigido acelerando mais. E o Lamborghini já não é mais tão rebelde ele levanta a proa e desliza praticamente como se fosse um aerobarco sobre a superfície. Tudo funciona tão incrivelmente bem que a euforia já há muito superou o ceticismo. É a euforia de triunfar sobre o deserto. Vencer, onde aparentemente não há nenhum progresso. Assim como um grupo explorador em um planeta distante. Há comando sobre a areia profunda.

Agora, não se deve ter muita compaixão com a criatura oprimida. Afinal com seu elemento de filtro de ar de polipropileno, o Aventador está perfeitamente calibrado para temperaturas desérticas. O plástico é mais frágil no frio, mas suporta temperaturas de até 110 °C sem estragos. Também não deve causar preocupação um eventual problema causado pelo ar quente no enorme V12 – a uma temperatura externa de quase 40 °C, a perda de potência, de acordo com o engenheiro de desenvolvimento da fabricante, é de, no máximo, 4%. Irrisório.

Na areia, existe uma máxima: se você decidiu dirigir, então deve ir até o fim. O ESP está desligado, a fim de evitar problemas, já que é desejável que as rodas girem em falso nessa condição. Viramos à direita e seguimos em direção às dunas, controlando o carro “no pé”. O Lambo balança, sacode, mas segue dominado. A areia fofa prende o carro, ele perde embalo, e nós aceleramos. Não se pode atolar.

Mais aceleração. De repente, tudo se encaixa: sobre superfícies escorregadias, até 45% do torque é enviado para as rodas dianteiras pela transmissão. E isso ajuda: seguimos em frente. A máquina de Sant’Agata Bolognese se esforça, luta, vence a duna e dispara novamente.

Fim da linha, missão cumprida. Nós freamos, desligamos o motor e saltamos do carro. A poeira some, e então a imagem fica clara: sob o céu ainda claro da noite, um Lamborghini Aventador LP 700-4 está no meio do deserto. Preto fosco, grotesco e irreal. A diferença é que, agora, você conhece a epopéia que aconteceu até ele chegar lá.

Na neve com o Aston Martin V12 Vantage Roadster

A expressão no rosto do frentista suíço não poderia ser de surpresa maior. Ele parecia se perguntar: “Ele quer cruzar a Julier Pass (estrada situada a 2.284 m de altitude nos Alpes) com esse carro? Com toda essa neve?”

Pensando bem, essa reação foi mais que compreensível. Afinal, eu não estava a bordo de um SUV ou de qualquer outro veículo com tração integral, mas sim em um Aston Martin V12 Vantage Roadster, uma das máquinas mais exclusivas do planeta, com nada menos que 517 cv à minha disposição seguindo em direção a St. Moritz, a badalada estação turística suíça, conhecida por ser o destino ideal dos amantes de esportes de inverno.

“Belo carro”, foi o único comentário feito pelo funcionário do posto de serviços durante o abastecimento. Mas, após terminar a tarefa, ele demonstrou mais interesse. “Tem tração integral?”, questionou. Diante da minha negativa e da explicação que o Vantage conta com tração apenas nas rodas traseiras, o atendente pareceu concluir que eu era algum tipo de milionário excêntrico disposto a me exibir.

Naquele momento, esse pensamento sequer me passou pela cabeça, mas, depois, refletindo melhor, até que não seria uma ideia absurda. Afinal, ninguém pode negar que o Aston Martin V12 Vantage Roadster é um automóvel belíssimo, potente, requintado e confortável. Sem falar que basta recolher a capota para tornar-se alvo de todas as atenções. Afinal, quem teria disposição para passear com um conversível aberto em uma estação de esqui em pleno inverno? Só sendo meio maluco mesmo. Ou então, um repórter cumprindo uma pauta diferenciada...

Voltemos ao carro: apesar de parecer um pouco fora do seu habitat (por conta da neve), o Aston Martin V12 Vantage Roadster cumpriu a tarefa de me levar a St. Moritz sem qualquer problema. O motor V12 com 58 mkgf de torque permitiu ao modelo vencer a estrada montanha acima sem titubear. Aproveitei para me familiarizar com o luxuoso padrão de acabamento do carro, assim como com suas reações.

O pesado motor V12 na dianteira não é muito recomendado para trafegar nessas condições. Carregar o porta-malas poderia ajudar a melhorar a aderência das rodas traseiras, mas não foi possível. Além disso, o Vantage é um modelo para duas pessoas e seu bagageiro não é dos maiores. Felizmente, a estrada está limpa, sem neve ou gelo, e, assim, após algumas horas, cheguei ao hotel em busca de uma reconfortante caneca de chocolate e um quarto aquecido, onde aguardarei pela melhora no clima.

Voltei à estrada no dia seguinte e o asfalto seguia oferecendo boa aderência, por isso resolvi arriscar e desligar o controle eletrônico de tração. Teve início, então, um belo (e perigoso) balé. Mas o Aston Martin é dócil e respondeu imediatamente aos comandos. Mesmo as manobras de correção nas curvas mais fechadas foram realizadas facilmente, mas em baixa velocidade, é bom destacar. 

Para quem é fã do agente secreto James Bond, não há como deixar de lembrar das cenas de perseguição e drifting sobre o gelo em Die Another Day (Um Novo Dia Para Morrer). O Aston Martin seguiu célere pela rodovia sinuosa e era impossível não se empolgar com seu desempenho. A sensação de segurança também impressionou. 

O motor do roadster britânico respondeu bem às acelerações, mas não causou reações “estúpidas” como as de um Porsche 911 Turbo, por exemplo, o qual literalmente joga a sua cabeça contra o apoio nas arrancadas. O Vantage ganha velocidade de maneira vigorosa, só que mais civilizadamente.

Em condições como esta, na qual a dirigibilidade é mais importante do que a potência, o Aston Martin se sai muito bem. É como um bom vinho Bordeaux, que deve ser apreciado sem pressa. A suavidade de suas respostas proporciona extremo prazer ao dirigir. A traseira, devidamente apoiada em pneus de inverno, se mantém sob controle, embora às vezes dê sinais de que deseja passar a dianteira do carro. Mas é só um lembrete de que, apesar da docilidade, este é um legítimo roadster com tração posterior.

Por falar em roadster, era hora de recolher o teto. Afinal, o sol continuava a brilhar e um bom Bordeaux também precisa respirar. Mas, para transportar os esquis que iria usar, tive de acomodá-los no banco do passageiro, já que o porta-malas do carro é pequeno (144 litros).

Só que, mesmo com o sol, a temperatura seguia congelante, ainda mais com o carro em movimento. A saída foi ligar o aquecimento no máximo antes de seguir viagem. A reação dos demais motoristas na estrada era uma sequência de sorrisos, acenos e gente apontando para mim. “Um spider!”, “um inglês!” ou “que maluco!” foram as expressões que mais percebi conforme avançava.

Confesso que não me senti nem um pouco à vontade com tantas pessoas me observando. Mas rodar com o teto aberto – como convém a todo roadster que se preze – proporciona outro prazer,no caso do Vantage: ouvir a verdadeira sinfonia heavy metal que o V12 de 517 cv produz. Além disso, ainda pode-se sentir o aroma resultante da queima da gasolina plus. Com tudo isso, o frio de -10° C nem chegou a incomodar tanto. Quer dizer, na verdade, incomodou sim. Mas, como a ideia de rodar com o carro aberto por essas terras geladas foi minha, não tive outra alternativa, senão resistir e tentar me manter o mais aquecido possível. Ossos do ofício.

Observando a charmosa St. Moritz de longe, é possível contemplar a beleza de suas construções e a sua formidável localização, com os Alpes ao lado, formando um cartão-postal natural, mas, mesmo assim, era difícil imaginar que estávamos na Meca dos milionários, que se esbaldam provando caviar de primeira ou passeando junto ao lago congelado a bordo de seus Range Rover.

Uma villa junto às montanhas de Silvretta, a área residencial mais cara e elegante da Suíça, pode custar 50 milhões de euros. Você deseja algo mais modesto, como um apartamento? Sem problema, basta adquirir um por “apenas” 12 milhões de euros.

Está com fome? Então, a pedida é seguir rumo à montanha Corviglia, onde, a 2 486 m de altitude, localiza-se o mais alto restaurante estrelado da Europa, o La Marmite. Ali, trufas e lagostas são servidas por preços que chegam às centenas de euros (porções individuais).

Neste mundo de riqueza e ostentação, os problemas ganham outra proporção. A árvore de Natal que você comprou este ano é muito grande para ser transportada em um caminhão? Então, tente levá-la com um helicóptero. Só não esqueça que você terá de agendar com certa antecedência, pois nessa época do ano o tráfego do aeroporto é intenso. Quem disse que os ricos não têm com o que se preocupar?

De volta ao centro de St. Moritz, sofro um “choque de realidade” ao conversar com um senhor alemão, proprietário de uma elegante butique de uma grife famosa. De acordo com ele, a imagem de um Aston Martin não é nenhuma novidade na cidade (embora esteja longe de ser comum). “O dono daquela loja possui um Aston Martin, mas cupê” – diz, apontando em direção a outro prédio, no qual se destaca outro logotipo famoso na fachada. “Eu só não me lembro de ter visto alguém trafegar em um modelo conversível e com a capota recolhida”, fez questão de frisar, finalizando a conversa com uma boa gargalhada.

Na calçada, um grupo de garotas caminha, protegidas do frio por casacos que, imagino, devem ser feitos com pele de mink, enquanto conversam animadamente. Elas não dão qualquer atenção ao V12 Vantage estacionado na rua e certamente não fazem a menor ideia de que se trata de um dos Aston Martin mais potentes já produzidos, ou que o Roadster possui componentes feitos de plástico reforçado com fibra de carbono. Ou mesmo que o aerofólio traseiro é capaz de gerar downforce, contribuindo para a estabilidade do modelo.

Para essas garotas, é provável que eu chamasse mais a atenção se estivesse com grandes sacolas estampadas com logotipos famosos a bordo do carro, sem importar qual fosse ele. Acho que é melhor ir embora e voltar a colocar os pés no chão.

Na estrada novamente, tenho a última oportunidade de me divertir, contornando as curvas fechadas (agora cobertas com uma fina camada de neve) e provocando breves saídas de traseira com o V12 Vantage Roadster. O passeio até o mundo dos ricos e famosos foi rápido, mas valeu a pena. Afinal, consegui conviver com tudo isso, mesmo que rapidamente, e sem gastar nenhum centavo! 

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