Capri, o Mustang europeu que lançou um superpiloto

CLAUS MÜHLBERGER
Da Auto Motor und Sport, na Alemanha
11/09/2016 13:30

Em 1965, os técnicos da Ford na Inglaterra começaram a trabalhar em um novo carro que fosse capaz de repetir na Europa o sucesso que o Mustang fazia no mercado americano. Ambicioso, o projeto envolveu engenheiros da fabricante no Reino Unido, na Alemanha e na Itália. O resultado foi o Capri, um fast­back de linhas simples e elegantes, que foi bem recebido pelo público.

Mas não bastava ser bonito. Como o Mustang, o Capri também deveria ter uma versão capaz de agradar quem desejava mais desempenho. Assim, para o mercado britânico, foi criada a versão 3000 GT, com motor V6 de 128 cv. O melhor, porém, ficou reservado para os alemães: o Capri RS (sigla de Rally Sport) trazia motor V6 de 2.6 litros, com 150 cv, injeção de combustível e freios a disco ventilados na dianteira. Uma fera!

Ford Capri, um fastback europeu inspirado no Mustang ianque
A ESCOLHA CERTA
"Cintos subabdominais! E pensar que era isso que se usava na época!", exclama Walter Röhrl ao se deparar com o Capri RS 1972 nº 23 restaurado e modernizado com o qual disputou o Rali Olympia daquele ano. Ao seu lado, o amigo Jochi Kleint grava tudo com o seu celular. Ambos fizeram parte do time de rali da Ford Alemanha, e os Capri RS eram preparados na oficina de Ernie, o irmão mais velho de Jochi.

Agora, 44 anos depois, a dupla – em ótima condição física, vale dizer – se encontra no estacionamento do Krug & Cafe am See, uma cafeteria de onde foi dada a largada para a especial do Rali Olympia de 1972. De lá, os competidores seguiam por um trecho de 5,5 km, cruzando avenidas ladeadas por grandes árvores na maior parte do tempo em quinta marcha.

Colega de equipe de Röhrl comanda a partida no Capri
Em 18 de agosto de 1972, o Capri nº 23 registrou um bom tempo naquela etapa. "Dois minutos e 28 segundos", recorda Röhrl. A velocidade média foi de 133 km/h, bastante rápido mesmo para os dias atuais, mas que não assegurou a liderança no rali. Jean-Pierre Nicolas e Bernard Darniche, com Alpine, Achim Warmbold, com BMW e o grande Hannu Mikkola, com Ford Escort, foram mais rápidos. "Mas o nosso tempo foi suficiente para garantir a classificação", recorda Röhrl.

VOLTANDO NO TEMPO
É hora, então, de acelerar. Röhrl se ajeita atrás do antigo volante de competição ("Sem nenhuma assistência, claro", observa) e afivela o moderno cinto de seis pontos, instalado na restauração. Além disso, os bancos tipo concha são macios e reforçam a sensação de segurança. O piloto veterano observa o interior do carro com aspecto resignado.

Bicampeão de WRC, Walter Röhrl pilota o Capri 44 anos depois
Não há gaiola de proteção como as de hoje, apenas o arco de segurança da época, conforme especificação da FIA. "Naquela época, você não podia desperdiçar seu tempo pensando no perigo que corria", diz.

Pilotar em alta velocidade no local do antigo rali é impensável nos dias atuais, já que o limite ali é 70 km/h. Mas um trecho livre entusiasma o veterano campeão, que pisa fundo no acelerador, fazendo o motor V6 do Capri rugir alto. Os 230 cv (em lugar dos 150 cv originais) se manifestam e o fastback avança rapidamente. A impressão é de que estamos a 200 km/h, mas, na verdade, devemos estar a 120 km/h ou 130 km/h, no máximo.

Os pés de Röhrl trabalham nos pedais como se fossem os do jovem Fred Astaire sapateando nos clássicos de Hollywood: freio, embreagem, acelerador, punta-tacco... tudo é feito de maneira fluida, sem confusão. De repente, o piloto aciona o freio de estacionamento, a traseira desliza vigorosamente, enquanto Röhrl controla tudo com o volante. E acelera com vontade!

Jochi Kleint (agachado), ex-colega de equipe, e Röhrl inspecionam o Capri
"Não há dúvida, o Capri foi um grande carro!", exclama o piloto. "Ele não possui a tendência de sair de frente e o sobreesterço é muito fácil de controlar, graças à sua ótima direção e também ao seu equilíbrio. Acho que não poderia ter escolhido um carro melhor para o início da minha carreira", afirma o bicampeão do WRC.

SEM COMPLICAÇÃO
Röhrl ainda faz outra observação pertinente:  como, naquela época, grandes carros de rali foram construídos utilizando recursos simples. "O Capri, por exemplo, possuía eixo rígido e feixe de molas na traseira. Era incrível!". O piloto alemão acrescenta: "Como se não bastasse, o carro não possuía ajustes para rodar sobre asfalto ou cascalho, a única coisa que mudava eram as rodas".

Os quatro dias de disputa a bordo do Capri amarelo em 1972 transformaram a carreira (e a vida) de Röhrl, mas o final não foi feliz. No último dia, uma bronzina do motor quebrou, e ele teve de abandonar. "Estávamos na frente, disputando a vitória, então foi muito amargo", recorda. "Mas no fim daquela corrida todos sabiam o meu nome". Era o começo da história.

Tradução e adaptação: Wilson Toume